A história da Paróquia de Nossa Senhora das Dores está intimamente ligada ao processo de formação do antigo distrito de Pouso Alto, atual município de Presidente Kubitschek, bem como à organização religiosa do centro-norte de Minas Gerais. Conforme registra o dossiê de inventário da Igreja Matriz, o templo integra a Arquidiocese de Diamantina, cuja origem remonta à criação da Diocese de Diamantina, em 6 de junho de 1854, por desmembramento da Diocese de Mariana, através da Bula Gravissimum Solicitudinis, do Papa Pio IX. Posteriormente, em 28 de junho de 1917, a Diocese foi elevada à condição de Arquidiocese Metropolitana pelo Papa Bento XV, por meio da Bula Quandocumque se Praebuit.
O inventário ressalta que, segundo relatos orais, o povoado de Andrequicé, atualmente pertencente ao município de Presidente Kubitschek, teve ocupação anterior à de Pouso Alto. A tradição local atribui esse primeiro núcleo de povoamento à presença de um padre português que, no final do século XVII, teria construído uma capela e um cemitério. Ainda conforme esses relatos, até o início do século XX os sepultamentos dos moradores da sede do município eram realizados nesse cemitério. O documento, entretanto, apresenta essas informações como tradição oral, sem documentação que as comprove.
As fontes históricas consultadas pelos autores do dossiê demonstram que Andrequicé possuía importância religiosa já no século XVIII e na primeira metade do século XIX. O arraial aparece entre as freguesias e curatos da antiga Vila do Príncipe, sendo citado em mapas históricos como uma localidade dotada de capela com padre fixo, condição que lhe conferia destaque entre os núcleos populacionais da região.
O desenvolvimento de Pouso Alto está relacionado, segundo o estudo, ao declínio da atividade mineradora em Andrequicé e ao crescimento das atividades comerciais ligadas ao tropeirismo. Em consequência desse processo, Pouso Alto foi elevado à categoria de distrito de Diamantina pela Lei nº 1.295, de 30 de outubro de 1866, e posteriormente à condição de freguesia pela Lei nº 3.442, de 28 de setembro de 1887.
Quanto à origem da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, o dossiê informa que é possível que tenha existido uma capela primitiva construída nas primeiras décadas do século XIX, posteriormente substituída pela atual edificação. Essa hipótese é fundamentada tanto nos relatos dos moradores quanto na evolução histórica da localidade. Segundo esses testemunhos, a antiga capela possuía cobertura de capim, uma torre central e já contava com sacristia ao fundo e à direita da construção. O estudo conclui que o início de uma construção mais sólida pode ser situado entre 1866 e 1887, embora ressalte que não há documentação capaz de confirmar precisamente essa cronologia.
O documento destaca ainda que a expansão da devoção a Nossa Senhora das Dores em Minas Gerais ocorreu principalmente a partir da segunda metade do século XVIII, quando a Irmandade das Dores se difundiu rapidamente pela Capitania. Esse contexto é apresentado como elemento importante para compreender a adoção dessa invocação mariana em Pouso Alto.
Segundo depoimentos recolhidos durante o inventário, da antiga capela teria permanecido apenas o altar-mor. José de Araújo Silva afirmou que esse foi o único elemento preservado da construção primitiva. Já Sebastião da Silva Diamantino declarou que o retábulo foi executado por João Alexandre, o mesmo artesão responsável por um altar em Itapanhoacanga. Ainda conforme esse depoimento, o altar foi confeccionado com madeira da própria região, especialmente cedro, sendo montado no local sem necessidade de adaptações posteriores. Em 2001, o retábulo recebeu nova pintura, procurando preservar suas cores originais. O dossiê observa que não foi possível identificar em qual das igrejas de Itapanhoacanga João Alexandre trabalhou, mas considera provável que a primitiva Capela de Nossa Senhora das Dores seja do início do século XIX.
A reestruturação da igreja, provavelmente realizada entre 1866 e 1887, teria incorporado um sino de bronze que permanece no templo. Entretanto, os pesquisadores observam que a inscrição “Angeli” existente na peça indica fabricação posterior a 1898, ano em que a Fundição Artística Paulistana passou a produzir os chamados “Sinos Angeli”.
O estudo considera provável que o patrimônio litúrgico da igreja tenha se ampliado após a criação da freguesia em 1887. Desse período seriam um antigo arcaz da sacristia, a imagem de Nossa Senhora das Dores, um ostensório, uma naveta, um turíbulo e um púlpito móvel utilizado tanto nas celebrações internas quanto nas pregações realizadas no largo da igreja. Segundo os relatos orais, nessa época as ladainhas eram celebradas em latim, com os fiéis ajoelhados ou em pé.
Os depoimentos recolhidos durante o inventário também registram a existência de outras imagens pertencentes ao templo, entre elas Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Sagrada Família, São Miguel, Santana Mestra e São Sebastião. Conforme essas informações, o Padre João Maria Augusto Poirier teria distribuído algumas dessas imagens aos moradores, enquanto outras, por estarem danificadas, teriam sido enterradas no adro da igreja. Geraldo do Sena Ribeiro afirmou ainda que a imagem de Nossa Senhora do Rosário foi vendida para custear reformas no templo. O antigo harmônio e a pia batismal também desapareceram, sem que o inventário identificasse seu destino.
O documento registra que, no final da década de 1920, a igreja foi atingida por um raio que danificou sua torre e parte das paredes. A reconstrução limitou-se aos reparos estruturais, não sendo erguida uma nova torre naquele momento. Durante muitos anos, o sino permaneceu instalado em um campanário situado diante da igreja. Ainda segundo relatos orais, um pintor representou o episódio em um quadro que permaneceu conhecido pelos moradores.
Na mesma intervenção foi executada uma decoração composta por querubins e cachos de uva no altar-mor. Conforme o inventário, essas pinturas foram posteriormente cobertas no final da década de 1980 durante nova reforma realizada a pedido do Padre Elino. A autoria da ornamentação permanece incerta: alguns entrevistados atribuem o trabalho a João Tameirão, enquanto outros afirmam que o responsável foi um pintor conhecido como Josino, ambos ligados à cidade do Serro.
O inventário dedica atenção especial ao antigo adro da igreja. Localizado na então Rua do Meio, atual Avenida Nossa Senhora das Dores, esse espaço constituía importante ponto de encontro da população. Existiam ali um rancho de tropeiros, um chafariz e quatro ciprestes. O acesso ao templo era feito por uma escadaria de pedra com quatorze degraus, aproximadamente seis metros de altura, enquanto o adro media entre dez e doze metros de extensão.
Com a remodelação urbana realizada em 1966, após a emancipação municipal, a antiga configuração do largo foi profundamente alterada. As árvores foram removidas, o chafariz e a escadaria demolidos e as pedras reaproveitadas na Rua 10 de Março. Segundo o dossiê, essas intervenções buscavam modernizar a paisagem urbana, mas resultaram na perda de elementos característicos do antigo conjunto colonial.
O histórico registra diversos sacerdotes que administraram a freguesia ao longo do tempo, destacando-se Padre José da Mata, Padre Ernesto Augusto Lajes, Padre Afonso Ligório de Souza, Padre Chico Pó, Padre Sebastião Ribeiro Viana, Cônego Júlio, Padre João Maria Augusto Poirier, Padre Raul Melo, Padre Sebastião Lina Borges, Padre Marcus Frota, Padre Maximino Medeiros e, de julho a dezembro de 2007, Padre Renato Diniz Magalhães Filho.
O dossiê ressalta que a manutenção de um sacerdote residente sempre constituiu dificuldade para a paróquia. Documentos de 1912 mostram que a freguesia encontrava-se vaga, permanecendo sob os cuidados do vigário de São Francisco de Paraúna. Somente na década de 1950 o arcebispo Dom Serafim designou o Padre João Maria Augusto Poirier para atender regularmente Datas e Pouso Alto. Em seu diário, o sacerdote registrou que encontrou igrejas em péssimo estado de conservação, ausência de estradas, iluminação e recursos financeiros, embora destacasse a religiosidade da população.
O Padre João Maria Augusto Poirier permaneceu ligado à comunidade de forma intermitente entre 1950 e 1993. O inventário registra que sua atuação marcou profundamente a vida religiosa local, sendo lembrado com grande carinho pelos moradores.
Entre as principais intervenções realizadas durante esse período destacam-se a construção da capela lateral do Santíssimo, na década de 1970, e a grande reforma de 1986, quando foram erguidas as duas torres atuais, instalado novo telhado e ampliados os corredores laterais em preparação ao centenário da paróquia, celebrado em 1987. Posteriormente, entre 2006 e 2007, ocorreram novas obras de revitalização da fachada e das torres.