A formação da Paróquia do Divino Espírito Santo, no atual município de Datas (MG), insere-se no contexto mais amplo dos processos históricos, sociais e culturais que marcaram a ocupação e o desenvolvimento da região do Distrito Diamantino. Nesse sentido, a construção da religiosidade local apresenta-se como elemento indissociável das dinâmicas econômicas e populacionais que estruturaram o território.
De acordo com relato de Joaquim Felício dos Santos, publicado no jornal O Jequitinhonha em 1861, a origem do povoamento remonta ao ano de 1779, quando o feitor Manoel Fernandes Lopes encontrou, às margens de um ribeiro na região das Datas, uma pedra em formato de pingo d’água, cuja aparência indicava tratar-se de diamante. Tal hipótese foi confirmada pela Coroa Portuguesa por meio de correspondência datada de 12 de fevereiro de 1780, que atestou a elevada qualidade das gemas e determinou que sua extração fosse rigidamente controlada, com remessa obrigatória a Lisboa.
A dinâmica econômica da região sofreu significativa alteração com a extinção do sistema da Real Extração, em 1832, quando se restabeleceu o regime de exploração livre dos diamantes. A partir de então, o governo provincial passou a conceder cartas de datas a particulares interessados na atividade mineradora, o que intensificou o fluxo migratório para a localidade. Segundo Joaquim Felício dos Santos, a região apresentava condições favoráveis à mineração, caracterizadas pela presença de veios promissores e disponibilidade hídrica. Paralelamente, Vieira Couto (1801) já destacava a fertilidade das terras locais, indicando potencial econômico para além da mineração.
Nesse contexto, consolidou-se um núcleo populacional às margens do Ribeirão das Datas, no qual se desenvolveram práticas religiosas centradas na devoção ao Divino Espírito Santo, Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Além das fontes documentais, a tradição oral registra narrativas que associam a difusão dessa devoção a episódios simbólicos ocorridos no ambiente das lavras diamantinas, contribuindo para a construção de uma identidade religiosa própria.
A institucionalização do culto ocorreu com a edificação de uma capela dedicada ao Divino Espírito Santo, cuja construção é situada, com base em evidências artísticas e documentais, no início da década de 1830. As pinturas do altar-mor e dos altares laterais, encobertas por fixação de novos altares, são atribuídas ao Mestre Caetano Luís de Miranda (falecido em 1837), o que reforça essa periodização.
O processo de organização administrativa da localidade avançou com a criação do Distrito de Paz Ribeirão das Datas, por meio da Lei Provincial nº 128, de 14 de março de 1839, desmembrado do Distrito da Gouveia, então pertencente ao município de Diamantina. Posteriormente, em 1848, a capela foi oficialmente reconhecida pela Lei Provincial nº 371, sendo incorporada à Freguesia do Paraúna (atual distrito de Costa Sena).
No ano de 1861, registra-se a chegada do Padre Antônio Fernandes de Souza ao arraial de Datas, vindo do Rio de Janeiro, sendo o primeiro sacerdote a estabelecer residência permanente na localidade. Sua atuação destacou-se tanto no âmbito religioso quanto educacional, ao exercer também a função de professor público de primeiras letras.
O crescimento demográfico e a relevância política da comunidade culminaram na elevação da Capela do Divino Espírito Santo à categoria de paróquia, por meio da Lei Provincial nº 1357, de 6 de novembro de 1866. Esse processo implicou a necessidade de adaptações estruturais do templo, a fim de atender às novas funções administrativas e litúrgicas.
As obras de reforma e ampliação da antiga capela, transformando-a em Igreja Matriz, contaram com a atuação do Padre Francisco Xavier de Almeida Rolim, nascido em Datas 1855, primeiro natural de Datas a receber ordenação sacerdotal, além de exercer mandato como vereador em Diamantina. Com o apoio do governo provincial, viabilizado pela Lei nº 2305, de 11 de julho de 1876, foram destinados recursos financeiros para a execução das obras. Destaca-se, ainda, a participação do construtor francês Louis Felix Guisard, também responsável por edificações relevantes na cidade de Diamantina.
Em 1883, por meio da Lei Provincial nº 1999, a paróquia foi incorporada ao município de Diamantina, consolidando sua inserção na estrutura administrativa regional.
Por fim, ressalta-se que, entre os anos de 1891 e 1923, o distrito foi oficialmente denominado Espírito Santo das Datas, em referência à centralidade da devoção religiosa na identidade local. A denominação foi posteriormente simplificada para Datas, conforme estabelecido pela Lei Estadual nº 843, de 7 de setembro de 1923.
Dessa forma, a trajetória da Paróquia do Divino Espírito Santo evidencia a inter-relação entre economia mineradora, organização social e construção da religiosidade, configurando-se como elemento fundamental para a compreensão histórica da região.
Narlisson de Jesus Martins
Datas/MG
Comunidades Paroquiais:
Nossa Senhora Auxiliadora – Cachimbos;
Sagrado Coração de Jesus – Palmital;
Santo Antônio – Poço Fundo;
Nossa Senhora Aparecida – Cubas;
São Judas Tadeu – Fazenda Santa Cruz;
Santa Luzia – Vargem do Basto;
São Gonçalo – Tombadouro;