PALAVRA DO ARCEBISPO – NATAL 2024
“… somente se enxerga bem com o coração” (Saint-Exupéry)
Convenhamos, caríssimos leitores, de quando em quando a “loucura” sensata da vida adulta nos rouba a capacidade que é própria das crianças, ou seja, para além da mera racionalidade sermos verdadeiramente humanos. Falo da condição de ver e compreender a vida a partir do coração, incluindo os sentidos, os sentimentos e as emoções. E tais atributos são fundamentais para se alcançar o mistério da Encarnação, quando Deus humanizado mostra-se também num corpo, Ele que é essencialmente espírito. Mais ainda, o Verbo que se encarnou não assumiu um corpo fictício e sem significância, pois “o amor é a própria notícia” (Santo Agostinho). Na “plenitude do tempo” (Gl 4,4) Deus se tornou partícipe das nossas vidas, das paixões, dores e esperanças da humanidade. Jesus Menino é Deus e homem verdadeiro!
Faço eco à profecia, para que dos ouvidos ela chegue aos corações: “Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2,11ss). Simples assim! Um menino, como qualquer outro, que está carente de cuidados, deitado num cocho de animais, frágil e próximo de todos. O sinal é uma criança pobre! A promessa se realiza: “um Menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Ele tem o poder sobre os ombros” (Is 9,5).
Somente os olhos do coração permitem ver naquele sinal o “Deus potente, Conselheiro admirável, Pai da eternidade, Príncipe da paz” (Is 9,6), nascido em Belém da Judéia, agora membro da família humana de Maria e de José. Apresenta-se, assim tão frágil para facilitar o encontro e a acolhida. Não vem para competir e nem para dominar com impulsos de ira. Ele quer arrebatar-nos pelo coração – o coração fala ao coração! – partilhando seu amor libertador, a única força capaz de nos converter para o bem e construir a “terra sem males”.
O Menino de Belém nos interpela! Quão absurdas são as guerras fraticidas, entre famílias e povos! A natureza em chamas grita aos céus clamando por água e consciência da sua finitude! Crianças abusadas e que padecem de sofrimentos atrozes, nascidas e por nascer, das quais o choro ou silêncio é oração por dignidade. Idosos desejosos de respeito e consideração pela vida ofertada. Jovens apequenados na esperança porque lhes falta apoio e abundam armadilhas para o consumismo, as drogas e toda sorte de ilusões. Basta de desumanidades! O amor encarnado, o Deus-conosco – “a luz que resplandeceu nas trevas” (Jo 1,5) nos ajuda a enxergar, como ensinam os padres da Igreja: “amor é o olho e amar é ver!” (Ricardo de S. Vítor).
A tradição, também, ensina que o Natal é a festa dos dons, quando trocamos presentes e nos encontramos mais sensíveis, afetuosos e fraternos. Os doutos e analfabetos compreendem a magnitude do amor que enlaça Deus e a inteira humanidade. As comemorações natalinas imitam a Deus que se fez próximo, que se fez dom por nós doando-se a Si próprio. Eis o convite que nasce daquela bendita manjedoura: envolver-nos por este agir divinamente amoroso e, entre os presentes trocados, “primeirar” em ser presença para o outro, dom e amor doação, preferindo os mais necessitados. Presentear, portanto, não somente aos que nos darão algo em troca, antes aos que nada podem oferecer ou retribuir. Assim, estaremos em sintonia com o homenageado – Jesus Menino – exercitando o seu mandamento maior: “… amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente… E amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22, 37ss).
Com a Igreja e como Igreja iniciamos o Ano Jubilar “Peregrinos da Esperança”. O Natal é a certeza de que não caminhamos sozinhos nas veredas desta vida e nem estamos presos aos limites estreitos das esperanças naturais: “Deus se humanizou para que a humanidade alcançasse a divinização” (Atanásio Alexandria). Proclamemos a verdadeira esperança: o “novo céu e a nova terra” (Ap 21,1) – uma nova criação! – são possíveis porque veio a nós o Salvador, Jesus Cristo. Ele nos amou primeiro (1Jo 4,19). Tenhamos olhos para ver, ouvidos para ouvir, coração para sentir e mãos para esperançar.
