O Mistério do Leitorato.
No princípio da Igreja primitiva, a Palavra de Deus não era um livro miúdo que se levava nas mãos, mas um tesouro vivo, guardado em rolos e pergaminhos raríssimos. Muito antes de a invenção da imprensa secularizar as letras e democratizar o texto sagrado, a fé das assembleias já estava pronta para ouvir o texto sagrado. O povo sedento dependia de uma voz que decifrasse os manuscritos sagrados no meio do silêncio. Foi aí, dessa necessidade profunda de fazer o Verbo ressoar, que brotou o ministério do leitor: aquele que precisava ter alma afinada e compreensão cristalina para que a Igreja pudesse escutar a Deus.
Hoje, ser um Leitor Instituído transcende a nobreza de uma mera função voluntária ou uma escala paroquial de domingo. Trata-se de um ministério estável, concedido de forma permanente pela Igreja mediante um rito litúrgico próprio e da bênção do Bispo. É uma vocação cravada na alma; um compromisso definitivo onde o fiel diz a Cristo: “Eis a minha voz, usa-a para sempre”.
Caminhando pela história, vemos que a beleza desse ofício passou por profundas transformações. Durante muito tempo, até as vésperas do Concílio Vaticano II, o leitorato habitava as chamadas “Ordens Menores”. Era um dos degraus na escadaria daqueles que rumavam ao sacerdócio, trilhando o caminho ao lado do ostiário — o guardião das chaves e portas do templo —, do exorcista — dedicado à cura e libertação —, e do acólito — servidor do altar e da Eucaristia.
Foi o Papa São Paulo VI, com a sabedoria do Motu Proprio Ministeria Quaedam (1972), quem lapidou essa estrutura. Ele reconheceu a grandeza autônoma do Leitorato e do Acolitato, fixando-os como ministérios instituídos em favor de toda a Igreja. E o Espírito, que sempre renova a face da terra, continuou a soprar: em janeiro de 2021, com o Motu Proprio Spiritus Domini, o Papa Francisco abriu os horizontes do Direito Canônico. A Igreja reconheceu, de forma oficial e estável, o carisma das mulheres nesses serviços, permitindo que vozes femininas e masculinas se unam de igual modo na dignidade deste altar.
A poesia desse ministério ganha corpo, cor e movimento na coreografia da Sagrada Liturgia. Na ausência do diácono, é o Leitor instituído quem rompe o corredor da procissão de entrada elevando o Evangeliário. É como se carregasse uma tocha acesa diante do celebrante, depositando suavemente sobre a mesa sagrada o livro que contém os passos e as promessas de Cristo.
Quando chega o momento da Liturgia da Palavra, o leitor sobe ao ambão para proclamar o Antigo e o Novo Testamento. Ali, ele não lê; ele encarna as Escrituras. Ao entoar as Leituras e o Salmo Responsorial — ou ao erguer as preces da Oração Universal da assembleia —, o leitor empresta suas cordas vocais, sua respiração e sua cadência para que a humanidade continue conversando com o divino.
Mas o ofício sacro não termina com a bênção final, quando o sacerdote despede a assembleia. Aquele que se faz alto-falante de Deus na Missa deve ser o eco da Palavra no mundo. A missão pastoral do leitor coroa-se na formação de crianças e adultos, preparando-os para os sacramentos. Ele atua fortemente na catequese, na evangelização e, de modo muito especial, instruindo com caridade e técnica os fiéis que leem de forma temporária, garantindo que o Anúncio seja feito sempre com clareza, dicção, postura e reverência.
O Leitorato é, enfim, o ministério da ponte e da ressonância. É o dom Daquele que se faz de pergaminho vivo, provando que a Palavra de Deus só atinge sua plenitude quando encontra um coração aberto para acolhê-la e uma voz apaixonada para proclamá-la.
Edison Soares de Oliveira
Diácono Permanente.
