1ª Leitura: Atos dos Apóstolos 1, 1-11
Salmo: 46(47)
2ª Leitura: Efésios 1, 17-23
Evangelho: Mateus 28, 16-20
A Solenidade da Ascensão do Senhor, celebrada quarenta dias após a Páscoa, recorda a elevação de Cristo ao céu e sua glorificação à direita do Pai. Segundo a tradição, o acontecimento se deu no Monte das Oliveiras, em Jerusalém. Não se trata de uma despedida, mas da inauguração de uma nova forma de presença de Jesus na Igreja e no mundo. A festa, inserida no tempo pascal, reafirma a vitória sobre a morte e simboliza a elevação da humanidade redimida à glória divina. Além disso, marca o início da missão confiada aos discípulos: anunciar o Evangelho a todas as nações, sustentados pela promessa do Espírito Santo. Embora tradicionalmente celebrada numa quinta-feira, em muitos países, como o Brasil, ela é transferida para o domingo seguinte, favorecendo a participação dos fiéis. É uma celebração que une esperança, triunfo e compromisso missionário, revelando o sentido teológico do retorno de Cristo ao Pai e a continuidade de sua ação salvadora na história. Cada leitura ilumina um aspecto desse mistério:
Nos Atos dos Apóstolos, os discípulos, ainda presos às expectativas humanas, esperavam que Jesus instaurasse imediatamente o reino de Israel, libertando-o do poder romano. Ele, porém, os conduz a olhar além, prometendo o Espírito Santo, que os sustentará até os confins da terra. A nuvem que oculta Jesus não é sinal de ausência, mas manifestação da glória divina. Ele não se afasta da humanidade, mas entra plenamente na glória do Pai, levando consigo a nossa condição humana. Os homens vestidos de branco recordam que não devemos permanecer parados olhando para o céu, mas caminhar com esperança, pois Cristo voltará glorioso.
O salmo proclama a alegria e o louvor ao Rei que venceu a morte e subiu ao céu. Ele governa todas as nações e um dia voltará, atendendo ao clamor do nosso coração: “Vem, Senhor Jesus!”.
São Paulo aprofunda o sentido teológico desse mistério: tudo vem de Deus Pai e se realiza por meio de Cristo, a quem pertencem a glória e o poder. Ele pede que o Senhor nos conceda sabedoria para compreender a esperança para a qual fomos chamados e a riqueza da herança que nos espera junto dos santos no céu.
O Evangelho de Mateus confirma o mandato missionário: “Ide e fazei discípulos a todos os povos”. Essas palavras não foram dirigidas apenas aos primeiros discípulos, mas também a cada um de nós. Cristo nos confia a missão essencial da vida cristã: anunciar o Evangelho a toda criatura. Aqui, também vemos a Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, reiterando a natureza trinitária de Deus, mistério central da fé cristã. Somos chamados a batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e a ensinar a viver segundo seus mandamentos, o que nos recorda a profundidade de nossa fé.
Por isso, nada deve ocupar o primeiro lugar acima dessa missão, pois Cristo é o Senhor do céu e da terra. Embora sejamos frágeis e, muitas vezes, divididos entre nossas obrigações e a fidelidade à Palavra, o próprio Senhor nos assegura: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”. Essa promessa nos dá força e coragem para testemunhar sua presença. Fazer discípulos é conduzir outros ao seguimento de Jesus, irradiando o amor de Deus por meio de atitudes que revelem o seu plano de salvação.
A Ascensão nos recorda que Cristo glorificado à direita do Pai continua presente em sua Igreja e nos envia em missão. Ele não nos abandona; ao contrário, realizou uma comunhão definitiva com a humanidade, abrindo-nos o caminho da plenitude. Agora, pelo Espírito Santo, somos movidos e conduzidos ao Pai. Cabe a nós colocar em prática tudo o que ouvimos e experimentamos, vivendo o Evangelho no cotidiano.
A ação pastoral da Igreja fundamenta-se em Mateus 28, o mandato missionário de Jesus. Ao enviar os discípulos para anunciar o Evangelho a todas as nações, Cristo confia à Igreja a missão permanente de evangelizar, formar discípulos e testemunhar sua presença no mundo. Essa missão se realiza na pregação da Palavra, na catequese, na celebração dos sacramentos e no cuidado com os necessitados. Ela se concretiza em três dimensões: Formação: ensinar e acompanhar na fé. Sacramentos: introduzir na vida cristã e na comunhão com Deus. Comunhão: viver a fraternidade e o serviço solidário.
A Ascensão revela ainda a união definitiva entre o céu e a terra. Em Cristo, nossa humanidade foi elevada a Deus, e toda a criação caminha para a reconciliação plena. O céu não é apenas uma realidade futura; ele já começa aqui, quando vivemos o amor, a justiça e a comunhão. Por isso, os primeiros cristãos compreendiam a ressurreição e a ascensão como o início dessa ligação definitiva entre Deus e a humanidade.
Tudo está interligado no projeto de Deus. Em Cristo, céu e terra reencontram sua unidade. A plenitude acontecerá quando “Deus for tudo em todos” (1Cor 15,28).
O movimento da Ascensão é também um caminho de humildade e serviço. Jesus sobe ao céu porque antes desceu e assumiu plenamente a condição humana. Assim também acontece conosco: subimos a Deus quando descemos à realidade concreta da vida, servindo, amando, cuidando e restaurando vínculos rompidos. A vida cristã não é fuga do mundo, mas compromisso profundo com a realidade iluminada pelo amor de Cristo.
Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG