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Homilia – 6º Domingo da Páscoa, 10 de maio de 2026

1ª Leitura: Atos dos Apóstolos 8,5-8.14-17

Salmo: 65

2ª Leitura: 1 Pedro 3, 15-18

Evangelho: João 14, 15-21

A Igreja, nos próximos dias, celebra duas grandes solenidades: a Ascensão e o Pentecostes. As leituras bíblicas nos conduzem à reflexão sobre esses acontecimentos. A Ascensão é apresentada no contexto do discurso de despedida de Jesus, enquanto o Pentecostes se revela na promessa do Espírito Santo e na imposição das mãos dos apóstolos. A liturgia nos mostra que Deus permanece presente em sua Igreja por meio do Espírito Santo, mesmo após a volta de Jesus ao Pai.

Na primeira leitura, narra-se o início da missão evangelizadora da Igreja fora de Jerusalém. Filipe, um dos sete diáconos escolhidos juntamente com Estêvão e outros, enfrentou perseguições. Estêvão foi martirizado e, em consequência, os cristãos se dispersaram pela Judeia e Samaria, enquanto os Apóstolos permaneceram em Jerusalém. Filipe dirigiu-se à cidade de Samaria e anunciou Cristo à população, provocando grande alegria e conversão. Ao saber que a Samaria havia acolhido a Palavra de Deus, a Igreja de Jerusalém enviou Pedro e João para completar a iniciação cristã realizada por Filipe, conferindo o dom do Espírito Santo aos recém-batizados mediante a imposição das mãos, já que o diácono não podia administrar este sacramento. Assim, os cristãos da Samaria foram confirmados na fé por Pedro e João. Os Atos relatam que o Espírito Santo ainda não havia descido sobre eles, pois tinham sido batizados apenas em nome de Jesus. Era necessário, portanto, que os Apóstolos lhes impusessem as mãos para que recebessem o Espírito Santo.

O Salmo é a resposta orante dessa experiência: o povo agradece a Deus pela libertação e pela vida nova. Reconhece que é o Senhor quem conduz, protege e mantém viva a promessa. O louvor é consequência da ação do Espírito que gera alegria e gratidão.

Na segunda leitura, o apóstolo mostra que o Espírito fortalece os cristãos para testemunhar a fé com mansidão e respeito, mesmo diante da perseguição. Assim como Cristo sofreu e foi vivificado pelo Espírito, também nós somos chamados a dar razões da esperança que nos anima, sustentados pela presença divina.

O Evangelho de João é o coração dessa ligação: Jesus promete o Paráclito, o Espírito da Verdade, que permanecerá com os discípulos e não os deixará órfãos. Etimologicamente, a designação significa aquele que é chamado para junto de alguém com o fim de defender, proteger, assistir, acompanhar, consolar; pode traduzir-se tanto por advogado, como por assistente, protetor ou consolador. O contexto deixa ver que se trata do Espírito Santo, sublinhando o seu papel de defensor.

Não virá para substituir Jesus, mas para continuar e aprofundar sua missão (v. 26), assim como o próprio Jesus, que não fala por conta própria (v.18). “Eu virei a vós” (v.19): pouco tempo ainda, e o mundo não mais o verá, mas os discípulos o verão, porque Ele vive e eles viverão.

Esta volta de Jesus pode ser entendida como as aparições depois da Ressurreição ou como a parusia. Todavia, é sobretudo um regresso permanente e constante, que se dá no agora, uma presença perceptível pela fé e pela contemplação. Os discípulos não estão condenados à orfandade: continuarão em comunhão de vida com Jesus e receberão o Espírito que lhes transmitirá a vida do Ressuscitado.

Para acolher plenamente a promessa de Cristo, é necessário um amor autêntico, manifestado na observância dos seus mandamentos: “Quem me ama guarda os meus mandamentos”. Somente quem vive este amor está verdadeiramente disposto a receber o Espírito Santo, pois o amor vence o medo, a separação e até mesmo a morte.

Quando Jesus fala de “os meus mandamentos”, não se refere aos Dez Mandamentos já presentes no Antigo Testamento. Pouco antes, Ele havia resumido toda a Lei e os Profetas no mandamento novo: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Eu vos amei”. Assim, Cristo indica que viver a fé significa fundamentar a existência no amor, assumindo como princípio e prática o modo como Ele próprio amou.

Portanto, a vida cristã não se reduz a normas ou prescrições, mas se realiza na experiência concreta do amor que gera comunhão, fortalece na adversidade e torna presente a ação do Espírito Santo na Igreja e em cada fiel.

Caríssimos irmãos e irmãs, ao nos aproximarmos das solenidades da Ascensão e de Pentecostes, a Liturgia nos recorda que não estamos sozinhos. Cristo, ao subir ao Pai, não abandona a sua Igreja, mas a reveste da força do Espírito Santo. Este Espírito confirma nossa fé, inspira nosso louvor, fortalece-nos nas provações e nos mantém em comunhão viva com o Ressuscitado.

A condição para acolher essa presença é o amor autêntico, vivido na prática dos mandamentos de Jesus, que se resumem em amar a Deus e ao próximo como Ele nos amou. Esse amor é capaz de vencer o medo, a solidão e a morte, tornando-nos testemunhas da esperança que não decepciona.

Assim, como comunidade, somos chamados a viver a fé não como um conjunto de normas, mas como experiência concreta de amor que gera comunhão e abre espaço para a ação do Espírito. Que, ao celebrarmos a Ascensão e o Pentecostes, renovemos nossa confiança: Cristo vive, e pelo Espírito Santo continua presente e atuante em sua Igreja.

Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG

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