1ª Leitura: Ezequiel 37, 12-14
Salmo: 129
2ª Leitura: Romanos 8, 8-11
Evangelho: João 11, 1-45
Estamos chegando ao fim da nossa caminhada quaresmal, às portas da Semana Santa, em direção à Páscoa, a maior festa do cristianismo, a ressurreição de Jesus. A liturgia de hoje continua a Catequese Batismal da Quaresma. Depois de apresentar Cristo como água para a nossa sede, na figura da Samaritana, e Cristo como luz para as nossas trevas, representado na cura do cego, hoje nos aponta para o Deus da vida: Jesus é a Ressurreição e a Vida. Deus quer vida para todos, e vida em plenitude (Jo 10,10).
Na primeira leitura, Ezequiel, o “profeta da esperança” exerce aí a sua missão profética entre os judeus exilados que estavam tristes e sem esperança, como ossos secos, anunciando-lhes a vida nova. O profeta Ezequiel disse que Deus podia dar vida nova, transformar tristeza em alegria e liberdade. A mensagem é: mesmo quando tudo parece perdido, Deus nunca abandona e sempre pode trazer esperança.
Assim, a esperança anunciada por Ezequiel encontra eco no salmo, que nos lembra de que o amor de Deus é maior que nossos pecados e sempre nos oferece perdão e vida nova.
Esse fio de esperança, que atravessa a história do povo de Deus, se torna ainda mais concreta na carta aos Romanos, onde Paulo lembra que o Espírito de Deus ressuscitou Jesus e promete também a nossa ressurreição. No Batismo recebemos esse Espírito, que nos dá vida nova. Quem vive só para os prazeres da carne se afasta de Deus e cai no pecado. Para viver segundo o Espírito é preciso rezar sempre, porque somos frágeis e podemos cair em tentação.
Essa promessa de vida nova anunciada por Paulo encontra sua expressão plena no Evangelho, que, inserido no “livro dos sinais”, apresenta o sétimo e último gesto de Jesus, que revela plenamente sua identidade e missão. Mais que um milagre, esse sinal conduz os discípulos de ontem e de hoje à fé viva em Cristo e prepara o coração para acolher, com esperança, os acontecimentos centrais da paixão, morte e ressurreição, onde se manifesta a plenitude da vida prometida.
É nesse contexto que surge o episódio de Lázaro, sinal que aponta para algo maior. Quando Jesus chamou Lázaro para fora do túmulo, não foi uma ressurreição como a d’Ele. Lázaro voltou a viver, mas um dia morreria de novo. A isso chamamos de reanimação: Deus devolve vida a Lázaro, permitindo que ele viva novamente por um tempo limitado, como sinal do poder divino sobre a morte e da esperança que Ele oferece.
Mas o verdadeiro horizonte que Jesus abre vai além dessa experiência: A verdadeira ressurreição é a vida nova e definitiva que Jesus conquistou para nós quando venceu a morte. Quem ressuscita com Cristo nunca mais morre, porque entra na vida eterna.
Assim, os milagres de reanimação na Bíblia, como o filho da viúva de Sarepta, a filha de Jairo ou Lázaro, são sinais que apontam para algo maior: mostram que Deus é Senhor da vida e nos preparam para acreditar na vitória definitiva de Jesus sobre a morte.
O texto também apresenta o pedido de Marta como um exemplo de oração confiante e de abandono nas mãos do Senhor que sabe melhor que nós o que nos convém. Marta não pede apenas que o irmão volte à vida, mas mostra confiança de que todo pedido feito com fé, segundo a vontade de Deus, será atendido da melhor forma.
É neste diálogo que Jesus responde a Marta: ‘Eu sou a ressurreição e a vida… ’. Esta é uma das definições que o Senhor deu de Si mesmo! É a ressurreição porque com a Sua Vitória sobre a morte, é causa da ressurreição de todos nós. “Aquele que crer, ainda que esteja morto, viverá”… “Crês isto?” Por isso para quem tem fé, a morte não é o fim, mas a passagem para a vida eterna, uma transformação, uma nova morada eterna.
Diante dessas leituras, a Palavra de Deus nos faz uma pergunta muito concreta para a nossa vida: onde existem “ossos secos” em nossa comunidade e em nosso coração?
Muitas vezes também nós experimentamos situações que parecem sem vida: famílias feridas por divisões, pessoas que perderam a esperança, jovens que não encontram sentido para a vida, idosos que se sentem esquecidos, pessoas que vivem presas ao pecado, ao vício ou ao desânimo espiritual. Quantas vezes também nossa fé fica enfraquecida, como se estivesse seca, sem entusiasmo e sem alegria.
A mensagem de hoje nos recorda que Deus nunca desiste de nós. Assim como o Espírito de Deus soprou sobre os ossos secos anunciados pelo profeta, também hoje o Senhor quer soprar vida nova sobre o nosso coração. Ele continua abrindo sepulcros: sepulcros da tristeza, do pecado, da falta de perdão, da indiferença e da desesperança.
No Evangelho, Jesus não apenas ressuscita Lázaro; Ele também diz: “Desatai-o e deixai-o caminhar.” Isso significa que a vida nova que Deus nos dá também passa pela ajuda da comunidade. Muitas vezes Deus age através de nós: quando perdoamos, quando escutamos alguém que sofre, quando visitamos um doente, quando encorajamos quem perdeu a esperança.
Neste tempo de Quaresma, o Senhor nos chama a sair dos nossos “túmulos”: das trevas do pecado, da falta de perdão, das ilusões que nos aprisionam. Ele nos convida à conversão e à reconciliação, para que possamos viver já agora a vida nova que Ele nos oferece.
Por isso, a Igreja nos oferece caminhos concretos: a oração mais intensa, jejuns dos vícios, a escuta da Palavra, a caridade e o sacramento da reconciliação. A confissão é um verdadeiro encontro com Cristo que nos devolve a vida da graça.
Irmãos e irmãs, peçamos hoje ao Senhor a mesma graça que Ele pediu a Marta: uma fé viva. E deixemos que o Espírito Santo renove nossa vida, nossa família e nossa comunidade, pois quem caminha com Cristo nunca permanece na morte: com Ele sempre há esperança, sempre há vida nova.
Portanto, podemos cantar com confiança, como o salmista: “Minha alma espera no Senhor mais que o vigia pela aurora”, pois sabemos que em cada amanhecer Ele renova em nós a certeza da vitória da vida sobre a morte.
Reflitamos!
Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG