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Homilia – 5º Domingo da Páscoa, 3 de maio de 2026

1ª Leitura: Atos dos Apóstolos 6, 1-7

Salmo: 32(33),1-2.4-5.18-19 (R. 22)

2ª Leitura: 1 Pedro 2, 4-9

Evangelho: João 14, 1-12

Neste 5º Domingo da Páscoa, somos chamados a permanecer em Jesus, pois somente n’Ele encontramos força para vencer as dificuldades da vida. A fé é o ponto de partida, vivida na prática do amor fraterno e na vida comunitária, onde surgem conflitos e desafios, mas também se manifesta a presença do Senhor que nos conduz.

A liturgia nos recorda que nem tudo foi fácil no trabalho dos Apóstolos, pioneiros da Igreja nascente. Por vezes surgiam discórdias entre os irmãos, mas esses conflitos eram superados pela graça e pela presença de Jesus. Os Apóstolos não estavam sozinhos: eram guiados pelo Espírito Santo. Apesar de alguns tropeços, a Palavra de Deus se espalhava, o número de discípulos aumentava em Jerusalém e muitos sacerdotes judeus aderiam à fé. Com o crescimento da comunidade, tornou-se necessário que outros assumissem parte do serviço, pois os Apóstolos já não conseguiam atender a todos. Os cristãos de origem grega reclamavam que suas viúvas não recebiam a mesma atenção que as viúvas judaicas. Para resolver a situação, os Apóstolos escolheram sete homens “cheios do Espírito Santo” para cuidar do serviço das mesas, enquanto eles se dedicavam mais livremente à oração e ao anúncio da Palavra. Assim nasceu o primeiro ministério da Igreja: o Diaconato.

Nesse mesmo espírito de organização e crescimento, Pedro compara a Igreja a um edifício espiritual, no qual Cristo é a “pedra angular” e os cristãos são “pedras vivas”. O antigo templo de Jerusalém, construído com pedras materiais, é substituído por esse novo templo formado de pedras vivas.

E é justamente na Última Ceia que Jesus revela o fundamento desse novo templo: Ele próprio. Ao perceber a tristeza dos discípulos diante da sua partida, Jesus os conforta e proclama: “Não se perturbe o vosso coração; tende fé em Deus e tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas”. Nesse contexto, Ele declara solenemente: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Isso quer dizer que o número daqueles que podem e devem ser salvos é ilimitado. Dessa forma, todos os seres humanos são chamados à conversão e à salvação. Pois tem lugar para todos no Céu. Mas onde é o Céu? Os astronautas já varreram o espaço sideral e ninguém trouxe notícias de um lugar parecido com o céu. Alguém já disse que o Céu é um estado de espírito. Essa afirmação não parece muito convincente. Ora, partindo do princípio de que Maria foi elevada ao Céu de corpo e alma, ela deve estar em um lugar sólido, visível, físico, que só Deus sabe. Quanto a nós, resta-nos esperar para ver. De uma coisa temos certeza. O Céu existe porque foi o próprio Jesus quem o disse, e para Deus nada é impossível!

Quem me viu, viu o Pai. Jesus afirma categoricamente que Ele é o próprio Deus vivo no meio de nós. No meio dos discípulos que o viam e o ouviam naquele momento histórico. Ele é a mesma coisa que o Pai. Ele é o próprio Deus.

No curso da conversação, Jesus lhes faz esta confissão: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”.

Estamos diante da afirmação mais densa referida à identidade e à essência de Jesus. Não se conhece na história das religiões uma afirmação tão audaciosa, destemida e inovadora como esta. Jesus se oferece como o caminho que podemos percorrer para entrar no mistério de um Deus Pai. Ele nos faz descobrir o segredo último da existência. Ele pode nos comunicar a vida plena que todo coração humano aspira.

Eu sou o “caminho”. O conceito de “caminho” supõe um destino, o Pai. O problema é que muitas pessoas vivem sem caminho, perdidos numa espécie de labirinto: andando e refazendo mil caminhos que, a partir de fora, lhes vão indicando os slogans e modismos do momento. E em quase todos os ambientes, a confusão, a dispersão… Há muitos que buscam um caminho para sobreviver: os imigrantes, os refugiados, os famintos, os que não têm um horizonte de sentido… Outros, em meio a uma solidão de um mundo hiperconectado, sentem a desorientação da multiplicidade de mensagens portadoras de mentiras e “fake-news”. Outros ainda esvaziam suas vidas investindo no poder, na vaidade, no acúmulo de riquezas… e acabam caindo na maior frustração e vazio interior.

E, o que pode fazer um homem ou uma mulher quando se encontra sem caminho? A quem pode se dirigir? Aonde pode ir? Ao aproximar-se de Jesus, o que se encontrará não é uma religião, mas um caminho. Às vezes, seguem este caminho com fé, com dificuldades, com crises e provações, e alguns até retrocedem, porém, os que seguem, estão no caminho certo que conduz ao Pai. Esta é a promessa de Jesus.

Eu sou a “verdade”.  O conceito de “verdade” pressupõe um conteúdo, o mesmo Jesus. Verdade que não se reduz a teorias, a dogmas, a doutrinas…, mas transparência da essência, do ser verdadeiro. Jesus não diz: “eu tenho a verdade”, mas, “eu sou a verdade”, isto quer dizer: “sou verdadeiro”, coerente com o seu modo de ser e viver.

Porém, nem tudo se reduz à razão. A teoria científica não possui toda a verdade. Deus não se deixa apanhar pelas análises empíricas. O ser humano há de viver diante deste mistério com fé, pois ter fé em Deus é acreditar na sua existência e na sua onisciência (saber absoluto, pleno), mesmo que não O vemos.

O conceito de “vida”. Dos três termos, o único absoluto é “Vida”, isto é: em Jesus está a vida. Jesus pode transformar nossa vida. A partir do profundo do nosso ser, Jesus nos infunde um germe de vida nova e eterna.

Portanto, Jamais entenderemos a fé cristã se não acolhermos Jesus como o caminho, a verdade e a vida. Estas três dimensões apontam para o sentido último da nossa existência; expressam as três grandes buscas do ser humano. O ser humano é ser de travessia: é peregrino por natureza, busca um horizonte, desloca-se em direção a uma plenitude. Jesus se faz o centro deste Caminho.  Reflitamos!

Num mundo marcado pela desorientação, pela mentira e pelo vazio existencial, nós, como cristãos católicos, somos chamados a assumir três atitudes fundamentais: Ser caminho: acolher os que estão perdidos, migrantes, refugiados, famintos, jovens sem horizonte, oferecendo direção e esperança. Testemunhar a verdade: viver com coerência e transparência, combatendo a mentira, a manipulação e as falsas promessas que circulam nas redes e na sociedade. Promover a vida: cuidar dos mais frágeis, defender a dignidade humana e comunicar a vida nova que Cristo nos dá. Assim, nossas comunidades tornam-se espaços de esperança e inclusão, sinais visíveis de que há muitas moradas na casa do Pai e lugar para todos no coração de Deus. Reflitamos!

Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG

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