Arquidiocese, Destaque, Homilias, Institucional

Homilia – 4º Domingo da Quaresma, 15 de março de 2026

Irmãos e irmãs, este domingo nos convida à alegria, pois já sentimos a proximidade da Páscoa, sinal da vitória da vida sobre a morte. A liturgia nos mostra que Deus transforma trevas em luz e chama os pequenos para realizar sua obra de salvação.

Na Primeira leitura, Deus escolhe Davi, o mais jovem e simples, mostrando que sua lógica não é a dos homens. Ele não se guia por aparência ou méritos, mas pela liberdade de seu amor. Na Segunda leitura, Paulo recorda que, em Cristo, passamos das trevas para a luz. Ser filhos da luz significa viver na bondade, na justiça e na verdade.

O evangelho apresenta uma narrativa de profundo valor simbólico: a cura do cego de nascença. Os judeus acreditavam que toda doença era causado pelos pecados de cada pessoa. Foi por isso que os discípulos perguntaram quem foi que pecou, para que aquele pobre homem nascesse cego. Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele“. Ou seja, a limitação física do cego se torna oportunidade para que Deus revele seu poder e misericórdia. Não é que Deus tenha “causado” a cegueira para depois curar, mas que, diante da realidade humana, Ele pode agir e transformar. Este episódio não se limita a um milagre físico, mas revela verdades espirituais que nos desafiam. Nesse mesmo sentido, o versículo seis merece atenção especial. Nele, Jesus mistura saliva com terra e unge os olhos do cego. Esse gesto remete à criação do homem em Gênesis 2,7, quando Deus formou Adão do pó da terra, e carrega significados que podem ser compreendidos em três dimensões:

Na cultura judaica antiga, a saliva era considerada portadora de vitalidade. Ao utilizá-la, Jesus comunica que sua própria vida e poder divino são transmitidos ao homem.

O barro simboliza a fragilidade humana, que precisa ser tocada e recriada pela graça.

O envio à piscina de Siloé mostra que a cura exige fé e obediência à palavra de Cristo.

Além desse gesto carregado de simbolismo, o texto nos conduz a refletir sobre três dimensões complementares:

A cegueira física: revela a limitação sensorial e torna-se metáfora da condição humana que precisa ser restaurada pela misericórdia de Deus. Presente desde o nascimento, ela é vencida quando Jesus, em gesto de compaixão e manifestação de poder, restitui a visão ao homem, mostrando que Ele é a luz que desfaz a escuridão.

A cegueira espiritual: simboliza a incapacidade de reconhecer a verdade e perceber a presença de Deus. Mais grave que a física, afeta o coração e a mente. Ela se manifesta nos fariseus e em todos os que, mesmo diante da evidência do milagre, permanecem presos a seus esquemas e recusam-se a admitir que Jesus devolvera a visão ao cego. Argumentavam que, embora o Messias devesse curar os cegos, Jesus não poderia sê-lo por ter realizado o milagre em dia de sábado. Sem explicação plausível, mantinham-se inflexíveis, afirmando que Ele não podia ser de Deus.

A visão da fé: surge como contraponto às cegueiras física e espiritual. Não depende dos olhos, mas da abertura do coração e da confiança. A fé ultrapassa os limites da razão, ilumina o que parece incompreensível e dá sentido ao sofrimento. O homem, outrora cego, recebeu não apenas a visão física, mas também a espiritual, reconhecendo em Jesus o Messias e professando: “Eu creio, Senhor!” Esse gesto revela que a verdadeira visão é discernir com o coração e deixar-se transformar pela graça. A fé é, portanto, dom e resposta: nasce da iniciativa de Deus que se revela e exige acolhimento humilde e confiança. Quem permanece fechado na autossuficiência, ainda que possua olhos saudáveis, vive nas sombras da incredulidade. Mas quem se abre ao Senhor encontra a luz que conduz à vida eterna.

À luz dessa compreensão da fé, torna-se evidente que, no mundo atual, percebemos como a lógica humana continua a valorizar aparência, poder e influência. A sociedade exalta os fortes, os bem-sucedidos, os que têm visibilidade. No entanto, a Palavra nos recorda que Deus escolhe os pequenos, os esquecidos, os que não contam aos olhos do mundo. Em tempos de redes sociais, em que a imagem parece valer mais do que a verdade, somos convidados a redescobrir que o olhar de Deus vai além das aparências e alcança o coração. Ele continua a chamar pessoas simples para realizar grandes obras, e muitas vezes, é através dos gestos discretos de bondade que sua luz se manifesta.

A exortação de Paulo também ganha força em nossos dias. Vivemos em uma época marcada por polarizações, fake news e tantas formas de “trevas” que obscurecem a verdade. Ser “filho da luz” hoje significa testemunhar a fé com autenticidade, cultivar a justiça e a solidariedade, e não se deixar seduzir por caminhos fáceis que levam à indiferença ou ao egoísmo. A luz de Cristo nos chama a ser presença transformadora em nossas famílias, comunidades e ambientes de trabalho.

O evangelho da cura do cego de nascença nos interpela de maneira especial. Quantas cegueiras espirituais ainda persistem em nossa sociedade: preconceitos, intolerâncias, incapacidade de reconhecer o valor do outro. Jesus nos mostra que a verdadeira visão não é apenas enxergar com os olhos, mas abrir o coração para a fé e para o amor. Hoje, a cura que Ele nos oferece é também a capacidade de ver além das divisões, enxergar o irmão como dom e reconhecer que cada vida é preciosa.

Assim, a Quaresma se torna oportunidade concreta de conversão: deixar para trás as trevas da indiferença, da superficialidade e da autossuficiência, e caminhar rumo à luz que é Cristo. O cego curado nos lembra de que todos nós precisamos ser tocados pela graça para enxergar de verdade. Que neste tempo possamos pedir ao Senhor: “Abre os nossos olhos, para que vejamos com fé, e abre o nosso coração, para que vivamos como filhos da luz”.

Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG

OUTRAS NOTÍCIAS

CNBB

VATICANO