A Transfiguração do Senhor – subir e descer com Cristo
No segundo domingo da Quaresma, a liturgia nos conduz com Abraão, Paulo e os discípulos ao monte da Transfiguração, mostrando que seguir o Senhor exige coragem, confiança e abertura para sua glória. Abraão parte sustentado pela promessa, Paulo incentiva o testemunho sem medo e os discípulos aprendem que a oração e a escuta do Filho amado são o caminho para enfrentar a cruz.
A Quaresma é tempo de subir para estar com Deus e descer para servir aos irmãos, não como fuga, mas como transformação. Nesse espírito, a Campanha da Fraternidade 2026 recorda que a fé se traduz em compromisso com a vida, a dignidade humana e a construção de uma sociedade justa e fraterna.
Assim, somos convidados a unir contemplação e ação, fé e compromisso social. A Transfiguração aponta para a Ressurreição e nos envia a transformar o mundo com gestos de solidariedade, justiça e fraternidade, deixando Cristo transfigurar nosso coração e atitudes.
A fé que se arrisca na promessa de Deus (Gn. 12,1-4a): Na primeira leitura O Senhor diz a Abraão: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrarei. Farei de ti uma grande nação, e te abençoarei; engrandecerei o teu nome, e tu serás uma bênção”. . Abraão precisa acreditar em Deus e fazer o esforço de sair da própria terra e caminhar em busca de algo que parece distante e até impossível. Ele, já com setenta e cinco anos, obedece sem hesitar: deixa para trás sua segurança, suas raízes e parte rumo ao desconhecido; sustentado apenas pela promessa de Deus. Este gesto inaugura uma nova etapa: a fé como resposta à Palavra divina.
Temer a Deus: confiança que gera esperança (Sl.32(33),4-5.18-19.20-22): O Salmo nos mostra que temer a Deus não é viver com medo, mas seguir caminhos certos, sabendo que Ele nos acompanha não para punir, mas para orientar com amor.
Coragem no testemunho, graça na vocação e esperança na vida eterna (2Tm. 1,8b-10): Na segunda leitura São Paulo exorta Timóteo a não se envergonhar do testemunho de Cristo, mesmo diante das perseguições e sofrimentos. Ele recorda que a força para perseverar vem de Deus, que nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não por nossos méritos, mas por sua graça eterna revelada em Cristo Jesus.
Este Cristo, ao manifestar-se como Salvador, destruiu a morte e fez resplandecer a vida e a imortalidade por meio do Evangelho. Assim, o apóstolo nos ensina três verdades fundamentais:
- Coragem no testemunho: a fé deve ser proclamada sem medo, mesmo em meio às provações.
- Vocação pela graça: nossa missão nasce da iniciativa gratuita de Deus, não de nossos méritos.
- Esperança definitiva: em Cristo, a morte foi vencida e a vida eterna nos foi revelada.
Subir ao monte para ver a glória, descer para viver a missão (Mt 17,1-9): No Evangelho deste Domingo somos convidados a subir a montanha com Pedro, Tiago e João, seguindo Jesus que se recolhe para orar. A montanha, na Escritura, é lugar da presença de Deus: ali Moisés recebeu a Lei e Elias proclamou o Senhor. Agora, Mateus nos mostra Jesus transfigurado, com o rosto brilhando como o sol e as vestes resplandecentes de luz.
Diante desse mistério, somos chamados a refletir sobre dois caminhos: o da transfiguração e o da desfiguração. A Transfiguração manifesta a glória divina de Cristo e antecipa a vitória da vida sobre a morte. A primeira é fruto da graça: transforma quem vive o Evangelho com fidelidade, ilumina a existência com esperança e abre o coração para a comunhão plena com Deus. A segunda nasce do pecado e da corrupção: obscurece a beleza da vida, fere a dignidade humana e distancia do Senhor.
É justamente nesse contraste que o episódio da Transfiguração se torna revelador. Ele nos oferece preciosas lições para a Quaresma: subir ao monte simboliza a necessidade de oração e intimidade com Deus, afastando-se da agitação para recarregar as forças. A glória revelada no Tabor é também um consolo diante do escândalo da cruz, pois nos recorda que o sofrimento não tem a última palavra. A voz do Pai nos pede: “Escutai-o”, indicando que a essência da fé é a obediência ao Filho amado. Pedro deseja permanecer no alto, mas Jesus ensina que a experiência espiritual não é para isolamento; ela prepara para a descida e para o enfrentamento da realidade. Moisés e Elias desaparecem, restando apenas Jesus, que cumpre toda a revelação e se torna o centro da vida cristã.
Assim, o mistério vivido no monte não se encerra ali, mas se prolonga na vida cotidiana. É nesse prolongamento que se revelam os dois movimentos da fé: subir e descer. Subir é buscar silêncio e oração, ouvir a voz do Senhor e aquecer o coração. Esse movimento de subir e descer encontra sua expressão mais plena na Eucaristia, onde Cristo se revela e nos alimenta, antecipando também a glória da Ressurreição. Participar da Missa é subir ao monte para encontrar Cristo, ao sair dela, somos enviados a “descer” para servir. O descer do monte significa assumir a missão no mundo, onde tantos irmãos sofrem, levando-lhes os frutos da graça recebida e sendo presença de esperança e consolo. Cada cristão é chamado a ser luz no meio das trevas, testemunhando Cristo nas situações concretas de dor, injustiça e pobreza. A oração não nos afasta da realidade, mas nos prepara para enfrentá-la com coragem e esperança.
À luz de todas essas leituras, compreendemos que a Quaresma nos prepara para a Ressurreição e para a Vida Eterna. É tempo de atitudes concretas de conversão: oração mais intensa, jejum autêntico e obras de caridade que transformam o coração. Este caminho não nos conduz apenas à celebração da Páscoa, mas já nos permite experimentar a plenitude da vida em Deus. A verdadeira transfiguração acontece quando deixamos Cristo transformar nosso coração e nossas ações.
Somos chamados à conversão e à renovação espiritual. É momento de examinar nossa conduta, intensificar a oração, a meditação e a escuta da Palavra de Deus, para que, fortalecidos pela Eucaristia, possamos resistir às tentações diárias. Firmes na fé, busquemos a transfiguração que nos une a Cristo, atentos à sua exortação: “Vigiai e orai. O espírito é forte, mas a carne é fraca.” Que o brilho de Cristo refletido em nós seja cultivado com perseverança, tornando-se luz e guia em meio às dificuldades da vida.
Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG