Destaque, Institucional, Reflexões

Homilia – 1º Domingo da Quaresma, 22 de fevereiro de 2026

As tentações do Senhor ainda continuam

A Quaresma é um convite ao silêncio e à renovação espiritual para vencer tentações e se aproximar de Deus. Em 2026, esse caminho se une à Campanha da Fraternidade, que foca no tema Fraternidade e Moradia. Com o lema Ele veio morar entre nós, a Igreja propõe que a fé se manifeste no cuidado concreto com aqueles que não possuem um lar digno.

A Primeira leitura (Gn 2,7-9; 3,1-7) nos recorda a tentação de Adão e Eva, que revela a raiz do pecado da humanidade: a desobediência. Criados para viver em plena comunhão com Deus, consigo mesmos e com a criação, deixaram-se seduzir pela serpente, símbolo do mal, e romperam a harmonia original.

Esse relato mostra que também nós continuamos a ser tentados pelas mesmas forças: o desejo desordenado de prazer, de possuir e de poder. Da concupiscência da carne nascem a gula, a luxúria e a preguiça; dos olhos, a avareza e o apego aos bens; do orgulho da vida, a inveja, a cólera e a vaidade. São tentações que nos afastam da graça e nos impedem de viver segundo os mandamentos.

Tal como Adão e Eva, estamos sempre diante do risco de querer nos tornar senhores da própria vida, esquecendo que nossa verdadeira liberdade está em Deus. O resultado é sempre fragilidade e afastamento da intimidade divina.

A Segunda leitura (Rm 5,12-19) nos recorda que, pela desobediência de Adão, o pecado entrou no mundo e atingiu toda a humanidade. Mas pela obediência de Cristo, a salvação nos alcançou.

Adão trouxe a perdição; Cristo trouxe a vida. Em Adão somos descendentes segundo a carne; em Cristo, pelo Batismo, somos descendentes segundo a graça. Nele recebemos o Espírito que nos renova e nos faz novas criaturas.

O apóstolo Paulo afirma: “Pela desobediência de um só, todos se tornaram pecadores; pela obediência de um só, todos se tornarão justos.” A graça de Deus é mais forte e mais eficaz do que o pecado.

O Evangelho segundo Mateus (Mt 4,1-11) apresenta-nos o episódio das tentações de Jesus no deserto. Durante quarenta dias, o Senhor é provado, sendo convidado a abandonar o projeto do Pai e a seguir caminhos aparentemente mais fáceis. Contudo, permanece firme e fiel à vontade divina.

O texto mostra que Jesus, sendo plenamente humano, também enfrentou tentações, mas sempre escolheu obedecer ao Pai com amor. Os quarenta dias no deserto remetem aos quarenta anos de Israel, quando o povo passou fome e aprendeu a confiar na Providência divina. Mateus apresenta três tentações simbólicas que resumem todas as provas vividas por Jesus em sua missão pública. São elas:

  • Tentação da Abundância (Riqueza): O Senhor é convidado a transformar pedras em pães. Jesus, porém, ensina que a vida não se reduz ao alimento material: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” Isto é, além do pão material, que sustenta o corpo, existem alimentos espirituais que fortalecem a alma e dão sentido à vida. Jesus nos recorda que a verdadeira plenitude vem da comunhão com Deus. Esses alimentos espirituais são fontes de vida interior e de fé. A seguir:
    1. A Palavra de Deus: A Escritura é alimento diário que ilumina, orienta e fortalece. Meditar e rezar com a Palavra é como nutrir o coração.
    2. A Eucaristia: O Pão consagrado é presença real de Cristo, sustento da vida cristã e fonte de comunhão.
    3. A Oração: O diálogo com Deus é alimento que dá paz, confiança e esperança.
    4. A Caridade: O amor vivido concretamente é alimento espiritual, pois quem serve e partilha experimenta a alegria do Evangelho.
    5. Os Sacramentos: Cada sacramento é um dom que alimenta a fé e renova a vida em Cristo.
    6. A Comunidade: A vida fraterna, o testemunho e o apoio mútuo são alimento que sustenta o discípulo na caminhada.
    7. O Silêncio e a Contemplação: Momentos de recolhimento e escuta interior são alimento para a alma, permitindo que Deus fale ao coração.

Assim, “viver além do pão” significa buscar esses alimentos que não perecem, não se compram, mas que são dons de Deus. Eles nos sustentam nas provações e nos ajudam a permanecer fiéis ao projeto divino.

  • Tentação do Prestígio: Jesus poderia ter buscado aplausos e reconhecimento por meio de gestos espetaculares, impondo-se pela admiração das multidões. Ele, no entanto, rejeita tal caminho e proclama: “Não tentarás o Senhor teu Deus.” A fé não se apoia em milagres forçados, mas na confiança humilde.
  • Tentação do Poder: O Senhor é convidado a dominar e governar, submetendo tudo ao seu mando. Mas Jesus recusa o poder terreno e reafirma: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele prestarás culto”.

Essas três provas revelam, em essência, uma única tentação: a de ignorar o projeto divino e seguir um caminho próprio. Jesus, porém, escolhe sempre a comunhão com o Pai e encontra na Palavra a força para vencer.

Atualidade das Tentações:

As tentações não ficaram no passado. Também hoje somos seduzidos por ídolos que disputam o lugar de Deus em nossas vidas:

  • Riqueza: a busca incessante por bens, conforto e comodidades, muitas vezes é tratada como se a felicidade dependesse apenas de possuí-los. No entanto, não há mal algum em desfrutar dessas coisas, desde que não se tornem o centro da vida. O essencial é colocar tudo nas mãos de Deus, reconhecendo que a verdadeira plenitude não vem do que temos, mas de quem guia nosso coração.
  • Prestígio: o desejo de aparecer, ser elogiado, ser reconhecido, ter sucesso etc.
  • Poder: a tentação de dominar e impor-se sobre os outros, exercendo autoridade com prepotência.

A Quaresma é tempo favorável para discernir quais são os “ídolos” que ocupam o lugar do Senhor em nossas escolhas e decisões. É ocasião de conversão, de retorno ao essencial: a comunhão com Deus e a fidelidade ao seu projeto de amor.

Reflitamos!

 

Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG

OUTRAS NOTÍCIAS

CNBB

VATICANO