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Homilia – 12º Domingo do Tempo Comum, 21 de Junho de 2026

1ª Leitura: Jeremias 20, 10-13

Salmo: 68(69)

2ª Leitura: Romanos 5, 12-15

Evangelho: Mateus 10, 16-33

No último domingo, refletimos sobre o chamado e o envio de inúmeras pessoas por Deus para a realização de seu plano de salvação. A liturgia nos recorda que a missão nunca foi fácil: anunciar a Palavra de Deus implica enfrentar resistências, incompreensões e perseguições. Contudo, é justamente nesses desafios que se manifesta a força da fé, pois a confiança e a coragem sustentam comunidades abertas à evangelização. A cruz, inevitável no caminho de quem anuncia Jesus, torna-se sinal de fidelidade e entrega, já que a vida do discípulo é marcada pela perseguição, mas também pela esperança.

A primeira leitura nos apresenta o profeta Jeremias, exemplo concreto de como o chamado à missão exige coragem diante da oposição. Jeremias experimentou perseguição, solidão e abandono. No início, resistiu ao chamado: “Ah, Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque sou apenas uma criança” (Jr 1,6). Mas o Senhor o encorajou: “Não tenhas medo, pois eu estou contigo para te livrar” (Jr 1,7-8). Fiel à ordem, Jeremias denuncia as autoridades e anuncia a destruição do templo, sendo preso e rejeitado. Mesmo assim, proclama com firmeza: “Tu, Senhor, estás comigo”. Sua experiência revela que a missão não é sustentada por capacidades humanas, mas pela presença constante de Deus.

À semelhança do profeta, também nós, servos de Deus, estamos sujeitos ao julgamento humano. Muitas vezes, até mesmo aqueles que se dizem nossos amigos voltam sua atenção para nossas imperfeições, na expectativa de encontrar algum erro. Essa realidade não se restringe ao mundo exterior; manifesta-se também em nossos próprios lares, sobretudo entre aqueles que ainda não descobriram o verdadeiro propósito da existência, por não terem experimentado a força e o amor divinos. O que se apresenta como crítica ou acusação, muitas vezes nasce de uma admiração velada, acompanhada do desejo de participar dessa vivência espiritual. Como não conseguem compreender plenamente, recorrem à acusação e à inveja.

Nesses momentos, somos tentados a nos deixar levar pela angústia, acreditando que somos vítimas indefesas. Contudo, é necessário recordar as palavras do profeta: “O Senhor está ao meu lado como um guerreiro poderoso.” Essa deve ser a nossa convicção: Ele luta em nosso favor e, por isso, somos mais que vencedores. O testemunho de Jeremias nos conduz ao clamor do salmista: “Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!” Em meio às perseguições e dificuldades, somos convidados a recorrer ao Senhor como nosso refúgio seguro.

São Paulo aprofunda essa confiança ao afirmar que a salvação não vem da Lei, mas da graça oferecida em Cristo. Pelo pecado entrou a morte; pela obediência de Jesus, recebemos a vida eterna. Assim, não devemos deter-nos no pecado, mas fixar-nos na graça e na misericórdia de Deus, cuja justiça é amor. A vida cristã não é marcada por medo ou escravidão, mas pela liberdade que nasce da graça.

No Evangelho, Jesus insiste e repete três vezes: “Não tenhais medo”! Cada repetição traz um motivo concreto para justificar sua recomendação. O medo, presente desde o pecado original, “Ouvi teus passos no jardim, por isso tive medo…” (Gn 3,10), é consequência da fragilidade humana. Jesus conhece nossas limitações e sabe da nossa falta de coragem para divulgar suas palavras. Por isso, sua insistência é também um gesto de ternura: Ele nos encoraja a enfrentar o medo com fé.

O medo se manifesta de muitas formas: medo de viver ou de morrer, de adoecer, de enfrentar dificuldades, de perder segurança, família, amigos, ou até mesmo medo de Deus. Há também o medo de perder status social, privilégios e vantagens. O sentir medo é humano, sinal de nossa limitação. Mas Jesus nos recorda que, se Deus cuida até dos pássaros, cuidará muito mais de nós, seus filhos: “Quanto a vós, até os cabelos da cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais” (Mt 10,30-31). Ele nos ensina que o verdadeiro temor não deve estar voltado para os homens, mas para Deus, que decide sobre o destino eterno da alma.

São Paulo, em outra ocasião, reforça essa certeza: “Nem a tribulação, nem a angústia, nem a perseguição, a fome, a nudez, nem a espada… nada poderá nos separar do amor de Deus, que se manifestou em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 8,35-39). Essa convicção nos dá coragem para testemunhar. Jesus não apenas consola, mas também chama à coragem: “Todo aquele que se declarar por mim diante dos homens, também eu me declararei por ele diante de meu Pai que está nos céus”. Declarar-se a favor de Jesus é testemunhar sua presença em nosso meio, é deixar o comodismo e apresentá-lo ao mundo. Negar Jesus não é apenas dizer que Ele não existe; é ignorar os pobres, praticar injustiça, corrupção e violência. É não enxergá-lo no próximo.

Assim, o “não tenhais medo” é também um convite à missão: anunciar o Evangelho sem reservas, certos de que nossa vida está nas mãos de Deus. Essa coragem nasce da esperança escatológica: sabemos que a vida verdadeira não termina com a morte, mas encontra sua plenitude em Deus. Por isso, não tememos os que podem ferir o corpo, mas confiamos naquele que guarda nossa alma para a eternidade.

Fortalecidos pela Palavra, somos chamados a viver sem medo, confiando que nossa vida está nas mãos de Deus e que a missão da Igreja é testemunhar com coragem e esperança. A liturgia deste domingo nos recorda que a cruz é inevitável, mas também nos assegura que o amor de Deus é invencível. Reflitamos!

Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG

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