Texto de Anderson Mendes Gurgel
Todo homem e mulher, quando chamados à existência, são também chamados a uma vocação específica, dentro do plano de amor que Deus tem para cada pessoa. Isso, ainda que não seja claro para todos, deve ser reiteradamente buscado, refletido, aclarado e conscientizado pois é daqui que dependem as grandes escolhas da vida, muitas das quais definitivas. São estas escolhas garantia para uma realização pessoal que transborde na vida junto dos outros como dom, e por isso, importante e imprescindível aspecto na trama da existência humana.
Além das vocações especificamente consagradas no seio da Igreja, devemos considerar a vocação leiga (que não é refratária, subsidiária ou extravagante dos sacerdotes e religiosos), que segundo muito bem delineia o Catecismo, se constitui especificamente como o trabalho daquelas pessoas, batizadas, que em meio às suas funções temporais, buscam o reino de Deus e iluminam as realidades sociais, políticas e econômicas com a doutrina e a vida cristãs (CIC 898-899). Pelo fato de não somente pertencerem à Igreja, mas serem Igreja, os leigos são encarregados por Deus de exercerem o apostolado a fim de que a mensagem cristã seja ouvida e conhecida por todos os homens, sendo tão necessária quanto a missão apostólica (CIC 900).
Assim, impregnar as realidades do mundo com o “bom odor de Cristo” (2 Cor 2,15) é constitutivo da missão e vocação do laicato. Isso só é possível se, primeiro, houver o encontro com a pessoa de Cristo, acontecimento que “dá à vida um novo horizonte, e dessa forma, o rumo decisivo” (BENTO XVI, Deus Caritas est, 1). Ora, tal encontro deve ser reiteradamente buscado através de uma genuína espiritualidade que lance todo leigo, cotidianamente, ao encontro de Deus (oração) e do outro (oblatividade).
Por muito tempo essa busca de Deus era, de fato, compreendida como a fuga mundi, própria do monacato dos primeiros tempos. A Igreja, todavia, entende que é o hoje, esse instante, o lugar e o tempo de encontro com Deus e, por isso, realidade favorável para a mística, principalmente para os leigos. O grande monge Thomas Merton, pouco depois de tornar conhecido o ideal monástico da fuga ao mundo, com sua autobiografia da A montanha dos sete patamares, compreendeu no ano de 1958, em pleno centro comercial de Louisville, no estado Americano de Kentucky, que “a mística só pode ser uma experiência cotidiana, solidária e integrativa” (MENDONÇA, 2016, p.10), e que, em meio àquele povo desencontrado e sedento, próprio das grandes cidades, ele era mais um membro dessa família humana na qual o próprio Filho de Deus quis fazer parte. É na história mais concreta possível que Deus se manifesta!
Compreende-se então que uma espiritualidade laical que prescinda das realidades do mundo, dos contextos sociais, daquilo que na sociedade contrasta com o Evangelho e sua mensagem, é ingênua para não dizer alienada. As realidades humanas, além de nos falarem de Deus (pois são mediações) são efetivamente convites para que respondamos livremente a crescer na fé, esperança e caridade. O efetivo encontro com Deus não tolhe nem restringe o encontro com o outro, com aquele próximo que Jesus fala no Evangelho como parábola (Lc 10,25-37), mas alarga ainda mais, a partir dessa oração da vida, os caminhos da oblatividade. São em nossas circunstâncias, demasiadamente humanas, que Deus deseja conosco se encontrar e, com nossa abertura, nos realizar como pessoas vocacionadas, no fim, à santidade.
Nesse mês das vocações, é preciso lembrar o chamado universal à santidade, tão prezado pelo Concílio Vaticano II e reiteradamente instado pelo magistério. Aqui, vale a pena rememorar as palavras do Papa Francisco, tão atuais e urgentes, quando, na exortação Gaudete et exsultate, fala dos santos ao pé da porta, e que evidencia a dimensão importante da vocação leiga: “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes […]. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da «classe média da santidade»” (Francisco, Gaudete et exsultate, 7).
Referências
BENTO XVI. Carta encíclica Deus caritas est: sobre o amor cristão. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html. Acesso em: ago 2022.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000.
FRANCISCO. Exortação apostólica Gaudete et Exsultate: sobre a chamada à santidade no mundo atual. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html. Acesso em: ago 2022.
MENDONÇA, José Tolentino de. A mística do instante; o tempo e a promessa. São Paulo: Paulinas, 2016, p. 10.