1ª Leitura: Sabedoria 12, 13.16-19
Salmo: 85(86),5-6.9-10.15-16a (R. 5a)
2ª Leitura: Romanos 8, 26-27
Evangelho: Mateus 13, 24-43
Jesus continua nos ensinando sobre o Reino de Deus por meio de parábolas, utilizando o cotidiano da vida agrícola e familiar. A liturgia da semana passada destacava a qualidade do solo, no evangelho do Semeador. Neste domingo, a liturgia volta-se para a Semente, sua força, e para a paciência e bondade divina.
Essa mesma paciência e compaixão já aparecem na primeira leitura, que não fala diretamente do Reino dos céus, mas do próprio Deus. Um Deus indulgente e misericordioso, que não se apressa em punir, mas concede tempo para a conversão.
Um exemplo marcante: a conquista da terra prometida aconteceu após muitos anos de guerras. Deus poderia ter evitado o sofrimento eliminando os povos pagãos, mas não teve pressa em castigá-los. Ele ama todas as pessoas que criou, mesmo quando praticam o mal.
Muitas vezes, porém, não conseguimos enxergar esse Deus paciente. Por diversos fatores, acabamos formando uma imagem distorcida: um Deus vingativo, impaciente, rancoroso, em suma, um Deus à nossa semelhança. O problema é quando essa visão é transmitida às crianças, seja na família ou na catequese. Elas crescem com medo de Deus, respeitando-o mais por temor do que por amor. Muitos adultos também carregam essa percepção, e por isso têm dificuldade em amar um Deus que O imaginam severo e punitivo.
As leituras de hoje, no entanto, revelam o contrário: um Deus paciente, compassivo, cheio de ternura e sempre disposto a perdoar, oferecendo novas oportunidades. O salmo responsorial reforça essa imagem ao proclamar: “Tu, Senhor, és bom e clemente, cheio de misericórdia para todos os que te invocam” (Sl 85).
A segunda leitura acrescenta que não estamos sozinhos em nossas fragilidades. O Espírito Santo vem em nosso auxílio, intercede por nós e nos conduz à vida plena. Isso mostra que, mesmo quando não sabemos rezar ou discernir, Deus nos acompanha e fortalece. Ele nos recorda que Deus não nos reduz ao pecado, mas nos reconhece como filhos amados, chamados à conversão e à esperança. É uma palavra de consolo para quem se sente fraco ou perdido.
O Evangelho apresenta a parábola do joio e do trigo, uma das mais desafiadoras, pois nos confronta com a realidade de que o bem e o mal convivem lado a lado, tanto no mundo quanto dentro de nós.
Essa parábola nos leva a refletir sobre a presença do mal e sobre a tentação de querer eliminá-lo de imediato, sem paciência nem discernimento. Deus, que tudo vê, disponibiliza condição favorável a todos, justos e injustos, bons e maus. Porém, muitos, indignados com as injustiças, pensam que Deus deveria agir diferente, eliminando os maus e deixando os bons viverem em paz. Não compreendem a paciência divina diante dos filhos desobedientes e violentos.
O dono da plantação não permite que seus empregados arranquem o joio. Não porque queira protegê-lo, mas porque, quando pequenos, joio e trigo são muito semelhantes. Ao arrancar o joio, poderiam confundir-se e eliminar também o trigo. Por isso, o patrão ordena: deixem que cresçam juntos; na colheita, os frutos revelarão quem é trigo e quem é joio. O joio não se transforma em trigo, mas o ser humano pode mudar, pode se converter. Deus dá tempo até o fim da vida para que cada pessoa escolha o caminho da mudança.
Arrancar o joio, isto é, eliminar o mal de forma precipitada, pode gerar injustiça, atingindo inocentes. Quantos presos sofrem anos de condenação e depois se descobre que eram inocentes! Deus não deseja injustiça, mas oportunidade para todos.
Como diz o ditado popular: “ninguém traz estrela na testa”. Nem sempre é possível distinguir quem é bom ou mau apenas pela aparência. As aparências enganam: lobos podem se disfarçar de cordeiros, tornando difícil identificar quem é quem.
Além disso, mesmo que nossas mentes estejam semeadas com a palavra de Deus, podem ser contaminadas pelo joio, semeado pelo inimigo. Esse joio se manifesta em atitudes como inveja, calúnia, ódio, preguiça, cobiça e tantas outras.
Em casa, Jesus explica aos discípulos a parábola e anuncia o julgamento futuro. Esse julgamento mostrará claramente quem vive de acordo com o Reino de Deus e quem se opõe a ele. Até a colheita, filhos do Reino e filhos do maligno convivem lado a lado, semeando o bem e o mal. No fim, o trigo será recolhido para o Reino dos céus, e o joio queimado. Os justos gozarão da paz eterna na presença de Deus, enquanto os que rejeitam o Reino enfrentarão o fogo eterno.
O bem e o mal não estão apenas fora de nós, mas dentro do coração humano. Em cada um convivem joio e trigo. Como não nos conhecemos plenamente, julgamos os outros com facilidade. Mas Jesus advertiu: “Não condeneis e não sereis condenados” (Mt 6,9-13). Ninguém é tão puro que não tenha nada de joio; ninguém pode afirmar que possui apenas trigo no coração. Jesus disse: “Somente Deus é bom” (Mt 19,17).
Somos inclinados a classificar pessoas em “boas” e “más”, mas só Deus conhece o interior de cada um. O verdadeiro sinal do “bom”, segundo Jesus, é o amor a Deus e ao próximo. Como lembra Mt 7,21-29: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus”.
Vivemos, portanto, o tempo da paciência e da misericórdia de Deus. Ele oferece a todos a chance de mudar de vida, de se converter, de pertencer ao seu Reino, de eliminar o joio interior. Cabe a nós, discípulos de Cristo, não ficarmos de braços cruzados, mas nos lançarmos com coragem, fé e perseverança na construção do Reino de Deus, junto aos irmãos que peregrinam conosco rumo à casa do Pai, confiantes na presença do Espírito Santo, que nos guia e fortalece.
Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
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