1ª Leitura: Isaías 55, 10-11
Salmo: 64(65)
2ª Leitura: Romanos 8, 18-23
Evangelho: Mateus 13, 1-23
A reflexão deste Domingo recai sobre a importância da Palavra de Deus para que ela dê frutos. Isto é, dê resultados concretos, signifique algo real para nossa vida e para o mundo, transformando-nos para melhor, de acordo com a vontade do Criador. A Palavra Divina não é um mero conjunto de ensinamentos teóricos, mas uma força viva, ativa e geradora de vida.
Essa verdade já se manifestou plenamente na história do povo de Israel. É justamente num contexto de dor e reconstrução que a promessa do profeta Isaías ganha força e sentido profundo. Assim diz o Senhor: “Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam sem ter regado a terra, sem a ter fecundado e feito germinar… assim acontece com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará para mim vazia, mas realizará minha vontade e fará o que lhe mandei” (vv. 10-11).
Ou seja, assim como a Palavra de Deus vai, ela também volta frutificada. Trata-se de um texto que corresponde ao período próximo de 538 a.C., quando o imperador Ciro, Rei da Pérsia, decreta o fim do exílio babilônico. O povo de Judá é então desafiado a retornar e reconstruir Jerusalém do meio das cinzas. Esta mensagem consoladora se dirige a pessoas que, em meio à desesperança, à opressão e ao desespero de décadas de exílio, por vezes se lamentaram afirmando que Deus os havia abandonado no esquecimento.
Também hoje há pessoas que, ao passar pelo desespero e pelas angústias da vida, questionam a Deus no silêncio de suas dores: Por que me abandonaste? Por que permitiste que isso acontecesse comigo? Perdas, doenças e crises existenciais funcionam como o nosso exílio babilônico particular.
Para muitas pessoas cristãs, nos momentos das piores tempestades da vida, surge a falsa ilusão de que Deus virou as costas. No entanto, a verdadeira fé nos garante que é justamente nesses cenários que Ele nos está carregando nos braços. Como bem profetizou o mesmo Isaías: “Como um pastor, ele apascenta o seu rebanho, reúne os cordeiros em seus braços e os carrega no colo” (Is 40,11). O silêncio de Deus não é ausência; é o recolhimento de quem cuida nos bastidores da alma.
O texto sagrado vem ressaltar a fidelidade inabalável das promessas divinas e o seu cumprimento histórico. Deus cumpre o que promete. Para muitas pessoas, a expressão “A palavra que sair da minha boca não voltará para mim vazia” refere-se exclusivamente à conversão moral de alguém. Claro, isso pode e deve acontecer. Não podemos medir, limitar ou especular a força e a capacidade de ação do Espírito Santo. O Espírito age onde, como e quando quer. Conforme as palavras de Jesus a Nicodemos, Ele é como o vento: ouve-se o barulho que faz, mas não se sabe de onde veio ou para onde vai (Jo 3,8).
Entretanto, o milagre da frutificação exige uma via de mão dupla: o ouvinte tem que colaborar. Deus não força a entrada na alma de ninguém; Ele prefere bater à porta e se deixar acolher. Se alguém não O acolhe, ou O acolhe mal, de modo superficial, imediatista ou por puro interesse, a semente morre e não se cria um vínculo real com o Senhor.
Aí está o mistério e a beleza da liberdade da alma humana: Deus respeita soberanamente a nossa liberdade, mesmo quando essa liberdade escolhe o fechar-se em si. Cristo ilustra essa dinâmica perfeitamente na Parábola do Semeador (Mt 13). O Semeador é generoso e lança a semente em todos os lugares: na beira do caminho, entre as pedras, no meio dos espinhos e na terra boa. A semente, que é a Palavra, tem o mesmo poder vital em qualquer terreno. O que muda o resultado não é a qualidade da semente, mas a disposição do solo que a recebe.
Além disso, a dimensão desta Palavra de Deus vai muito além do esforço humano. Ela possui uma eficácia intrínseca. Se o solo humano se abrir, mesmo que seja apenas uma fresta de fé do tamanho de um grão de mostarda, a Palavra realizará a sua obra de santificação. Ela é capaz de quebrar os corações de pedra e transformá-los em corações de carne.
Meus irmãos e irmãs, para atualizarmos a mensagem da Primeira Leitura que ouvimos há pouco, o cenário do Exílio Babilônico, e cruzá-la com o Evangelho dos terrenos da Parábola do Semeador, precisamos olhar para o nosso tempo. Em nosso tempo, o nosso maior cativeiro não é geográfico, e os espinhos não são plantas físicas. O exílio atual é existencial: vivemos no “exílio da dispersão” e do barulho digital.
O terreno repleto de espinhos (Mt 13) se manifesta hoje nas notificações incessantes, no uso compulsivo de dispositivos digitais e na pressa do cotidiano. A Palavra de Deus precisa de silêncio para criar raízes. Como a semente vai germinar se o solo da nossa mente está saturado de ansiedade, mecanismos digitais e divisões?
Assim como Deus enviou uma mensagem de esperança ao povo exilado na Babilônia, a Sua Palavra hoje nos convida a fazer um “êxodo” do ruído para encontrar o Senhor (Is 40,11) no silêncio do coração.
Que neste domingo possamos nos perguntar: que tipo de terreno tem sido o nosso coração para a Palavra de Deus? O terreno endurecido da rotina, o terreno pedregoso da falta de profundidade, o terreno espinhoso das preocupações do mundo, ou a terra boa e adubada pela oração e pela escuta atenta? Sejamos terra boa, para que a Palavra cumpra em nós a sua missão e retorne ao Pai em forma de frutos de amor, justiça e santidade.
Que a Virgem Maria nos ajude a preparar nosso coração como terra boa, capaz de acolher a Palavra e produzir frutos abundantes. Reflitamos!
Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG