1ª Leitura: Atos dos Apóstolos 2, 11a. 36-41
Salmo: 22
2ª Leitura: 1 Pedro 2, 20-25
Evangelho: Lucas 10, 1-10
Queridos irmãos e irmãs, chegamos ao 4º Domingo da Páscoa, conhecido como Domingo do Bom Pastor. Nesta celebração, a Igreja nos convida a rezar pelas vocações sacerdotais, religiosas e por todos aqueles que, de diferentes formas, se dedicam ao serviço do Reino de Deus.
A imagem do pastor, tão presente no Antigo Testamento, especialmente nos Profetas e nos Salmos, revela o cuidado amoroso de Deus por seu povo. É nesse horizonte que a liturgia nos apresenta o capítulo 10 do Evangelho de São João, cuja raiz está em Ezequiel: “ali, Deus denuncia os pastores infiéis que abandonaram o rebanho. Jesus, ao contrário, se revela como o verdadeiro Pastor, aquele que conhece suas ovelhas, chama-as pelo nome e conduz cada uma à vida plena” (Ez 34).
Essa revelação encontra eco na pregação de Pedro, repleto do Espírito Santo, que anuncia: “Convertei-vos e cada um seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos pecados; assim recebereis o dom do Espírito Santo.” A resposta da comunidade foi imediata: milhares se converteram e nasceram para a fé. Assim se manifesta o início da Igreja, fundada na escuta da Palavra, na conversão e na vida comunitária.
O salmista proclama com confiança: “O Senhor é meu Pastor, nada me faltará.” Essa certeza nos sustenta: guiados pelo Bom Pastor, nada nos falta, porque Ele nos conduz às águas tranquilas e nos fortalece em todas as situações.
O Apóstolo Pedro nos recorda que seguir Cristo implica também suportar os sofrimentos injustos com paciência. Ele, sem pecado, carregou em seu corpo os nossos pecados na cruz, para que morrêssemos ao pecado e vivêssemos na justiça. “Por suas feridas fostes curados.” Antes, éramos como ovelhas desgarradas, mas agora fomos reconduzidos ao Pastor e Guardião de nossas almas.
O Evangelho nos previne contra os falsos pastores: aqueles que não entram pela porta, mas agem como ladrões e mercenários. Para compreender melhor essa metáfora, consideremos a vida dos rebanhos na Judeia daqueles tempos: os pastores reuniam seus animais em redis comunitários, protegidos por guardiões que velavam durante a noite. O pastor entrava pela porta e chamava cada ovelha pelo nome; elas reconheciam sua voz. Mas, se um estranho tentasse entrar, as ovelhas não lhe davam ouvidos. Assim também deve ser na vida espiritual: discernir quem realmente conduz pelo caminho de Cristo e quem busca apenas interesses próprios.
Hoje, infelizmente, vemos líderes que exploram a fé, prometendo prosperidade e curas em troca de dinheiro. São mercenários modernos, que enriquecem às custas dos humildes. Essa realidade dos falsos pastores também se revela em nossos dias nas muitas denominações e seitas que se apresentam como o caminho e proclamam possuir a verdade absoluta, quando na realidade não passam de mercenários espirituais, iludindo a si mesmos e às pessoas. Criam doutrinas humanas, afastam os fiéis da Igreja fundada por Cristo e semeiam confusão. São vozes que não vêm do Bom Pastor, mas de interesses próprios. O Senhor nos alerta: “As minhas ovelhas conhecem a minha voz.” É preciso discernir, para não seguir qualquer voz que se levante, mas permanecer firmes na voz de Cristo, que é única e verdadeira.
Vivemos também em um tempo marcado pela desinformação, pelas redes sociais que espalham ódio e divisão, pela corrupção que mina a confiança nas instituições e pela indiferença diante dos pobres e necessitados. Muitos se deixam guiar por vozes que prometem soluções fáceis, mas que afastam do Evangelho. Quantos jovens são seduzidos por ideologias que distorcem a fé, quantas famílias se deixam distrair por um consumismo sem limites, quantos corações se fecham diante da dor do próximo! São lobos modernos que roubam nossa esperança e nos afastam da vida verdadeira.
A Palavra nos recorda: precisamos estar atentos e discernir. O verdadeiro pastor conduz ao encontro com Cristo, não ao lucro pessoal. Essa advertência nos ajuda a perceber que, se por um lado muitos se deixam seduzir pelas vozes do mundo e acabam vulneráveis aos lobos que destroem a fé, por outro, diante da voz do Bom Pastor que nos chama pelo nome, somos convidados a uma resposta concreta. É justamente nesse chamado que encontramos força para transformar nossa escuta em atitudes práticas de fé e de amor.
Para que esta Palavra se torne vida em nós, proponho três compromissos: Escuta e discernimento. Reservemos diariamente um tempo para a oração silenciosa e a leitura da Palavra de Deus; só assim poderemos distinguir a voz de Cristo das vozes enganadoras do mundo. Vida comunitária. Participemos com fidelidade da vida da Igreja: na Eucaristia dominical, nos grupos de oração, nos serviços pastorais. O rebanho só se fortalece quando caminha unido. Caridade concreta. Sejamos pastores uns dos outros, cuidando dos mais frágeis: visitando doentes, apoiando famílias em dificuldade, acolhendo os pobres e marginalizados. O Bom Pastor nos chama a sermos sinais vivos de sua misericórdia.
Assim, não apenas ouviremos a voz de Jesus, mas também a tornaremos audível para o mundo através de nossas ações. Que cada um de nós seja testemunha da esperança e da alegria que brotam do coração do Pastor que dá a vida por suas ovelhas.
Hoje, o Senhor nos pede: escutem a Minha voz. Só ela é digna de atenção. Só ela nos conduz à vida verdadeira, à felicidade plena e à eternidade.
Que o Espírito Santo abra nossos ouvidos e corações à voz do Bom Pastor, que deu a vida por nós. Que Ele nos molde e nos faça buscar sempre a vontade de Deus, para que sejamos verdadeiras ovelhas de Cristo, fiéis ao seu chamado e firmes na esperança da vida eterna.
Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG