Arquidiocese, Destaque, Homilias, Institucional

Homilia – 2º Domingo de Páscoa, 12 de abril de 2026

1ª Leitura: Atos dos Apóstolos 2, 42-47

Salmo: 117(118)

2ª Leitura: 1 Pedro 1, 3-9

Evangelho: João 20, 19-31

Neste segundo Domingo da Páscoa, celebrado pela Igreja como o Domingo da Divina Misericórdia, somos chamados a renovar nossa fé no Cristo Ressuscitado e a viver a misericórdia uns para com os outros, assim como Ele é misericordioso para conosco. A misericórdia foi o centro da vida de Jesus: suas palavras e ações sempre a revelaram. Misericórdia e perdão são distintos, mas inseparáveis: não há perdão sem misericórdia, nem misericórdia sem perdão.

Nos Atos dos Apóstolos, contemplamos a vida das primeiras comunidades cristãs: partilha dos bens, ajuda mútua, fraternidade, oração e devoção a Deus. Animados pelo Espírito Santo, viviam em comunhão e solidariedade. Hoje, porém, o cenário é diferente. O progresso, a tecnologia e a mídia, que promovem competição e consumismo, afastaram muitos da prática da partilha. O individualismo domina e a indiferença diante da necessidade do próximo tornou-se comum. Que o Senhor nos perdoe por tanto egoísmo e nos conduza à conversão.

O Salmo nos recorda que a misericórdia do Senhor é eterna. Ele nos convida a confiar plenamente em Deus, mesmo em tempos difíceis. Não devemos nos desesperar, mas entregar nossas vidas em suas mãos, certos de que Ele é nosso refúgio e salvação. A confiança no Senhor é o antídoto contra o medo e a insegurança que o mundo nos impõe.

Na primeira carta de Pedro, encontramos a continuidade dessa mensagem: a grande misericórdia de Deus nos sustenta e fortalece em meio às tribulações. As provações não são castigos, mas oportunidades para amadurecer na fé e confiar na providência divina. Pedro nos lembra que somente o Senhor tem poder para nos defender de todo mal e nos conduzir à vida em abundância. Contudo, o mundo atual, marcado por idolatrias e distrações, parece ter esquecido o verdadeiro Deus. É preciso retomar o caminho do Reino e colocar novamente o Senhor no centro da existência.

O Evangelho nos apresenta o Cristo Ressuscitado que aparece aos discípulos e lhes diz: “A paz esteja convosco”. Em seguida, Ele sopra sobre eles o Espírito Santo e lhes confere o poder de perdoar os pecados. Esse sopro remete ao ato criador de Deus em Gênesis: assim como o Senhor deu vida ao homem, agora Cristo comunica nova vida aos discípulos, capacitando-os a continuar sua obra de reconciliação.

Ao transmitir essa autoridade espiritual, fruto da cruz e da ressurreição, Jesus não lhes dá um poder para dominar, mas para servir. A Igreja é chamada a ser instrumento da misericórdia de Deus, ajudando os fiéis a se reconciliarem com Ele e entre si. Nesse gesto, a tradição católica reconhece a instituição do sacramento da confissão, no qual o sacerdote, pela força do Espírito, torna presente o perdão de Cristo. Esse dom não se limita aos apóstolos, mas permanece vivo na Igreja ao longo dos séculos, como missão contínua de anunciar e oferecer a misericórdia divina.

A paz que Jesus concede está intimamente ligada ao perdão, pois somente a reconciliação gera verdadeira paz interior e comunitária. O episódio de Tomé nos ensina que a fé não depende de provas materiais, mas da confiança no Senhor vivo. Sua incredulidade inicial se transforma em uma belíssima profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”. Também nós, que cremos sem ter visto, somos bem-aventurados.

Assim, todas as leituras deste domingo se unem em um mesmo convite: viver a misericórdia de Deus, confiar em sua providência e proclamar com convicção que Cristo está vivo. A ressurreição introduziu a vida divina na vida humana e espalhou-se pelo mundo como fogo que inflama os corações.

Entretanto, vivemos em um mundo marcado pela mentalidade científica, onde tudo precisa ser provado para ser considerado verdadeiro. A ciência, com todo o seu valor, não tem acesso a Deus por meio de experimentos, porque Ele não se revela em laboratórios, mas no coração humano. Deus só é acessível mediante a fé. Por isso, ainda hoje existem muitos “Tomés”, pessoas que exigem sinais palpáveis para acreditar.

O testemunho de Tomé nos mostra que a incredulidade pode ser vencida pela experiência pessoal com Cristo Ressuscitado. Sua profissão de fé é um chamado para que também nós, em meio às dúvidas e às exigências de provas do mundo moderno, confiemos plenamente no Senhor vivo. Nossa missão pastoral é dar testemunho concreto de Cristo Ressuscitado em meio à obscuridade, mostrando com nossas atitudes que Ele está presente e continua agindo.

Portanto, não basta falar de fé: é preciso torná-la visível, ajudando os “Tomés” de hoje a encontrar o Cristo vivo através do nosso testemunho. Cabe a nós proclamar com fé e alegria: “Meu Senhor e meu Deus!”.

Neste Domingo da Divina Misericórdia, somos convidados não apenas a contemplar a fé de Tomé, mas a assumir o compromisso de testemunhar Cristo Ressuscitado em um mundo que exige provas para tudo. A ciência tem seu valor, mas não pode alcançar o mistério de Deus; somente a fé abre o coração para reconhecê-Lo. Por isso, nossa prática pastoral deve ser sinal vivo da misericórdia: reconciliando-nos com quem nos magoou, oferecendo gestos concretos de caridade a quem sofre e proclamando com a vida que Cristo está presente.

Desse modo, cada um de nós se torna testemunha da Ressurreição em meio à obscuridade do mundo, iluminando os corações que ainda duvidam e ajudando-os a professar com confiança: “Meu Senhor e meu Deus!”.

Reflitamos!

Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG

OUTRAS NOTÍCIAS

CNBB

VATICANO