1ª Leitura: Isaías 52, 13 – 53, 12
Salmo: 117(118, 1-2.16ab-17.22-23
2ª Leitura: Colossenses 3, 1-4 | 1 Coríntios 5, 6b-8
Evangelho: João 20, 1-9
A Liturgia da Paixão do Senhor, celebrada na Sexta-feira Santa, é marcada pelo silêncio e pela sobriedade. Neste dia não se celebra a Eucaristia, mas apenas se distribui a comunhão, com o pão consagrado na Missa da Ceia do Senhor, na véspera. A celebração se desenvolve em momentos que nos conduzem ao coração do mistério pascal: a escuta da Palavra, a oração universal, a adoração da Cruz e o rito da comunhão.
Na Liturgia da Palavra, contemplamos Cristo como o Servo que carrega os pecados da humanidade, o Rei universal que entrega a vida por amor e o Sumo Sacerdote, único Mediador entre Deus e os homens. A oração universal exprime a abertura da Igreja, que intercede por todos, consciente de que a salvação oferecida por Cristo é destinada a toda a humanidade. Na adoração da Cruz, veneramos o sinal da vitória pascal: Jesus atravessa a morte dolorosa e humilhante para alcançar a glória da Ressurreição, e nós, ao honrarmos a Cruz, reconhecemos e agradecemos o seu amor infinito. Por fim, no rito da comunhão, participamos do pão eucarístico, unidos ao Senhor que se entregou por nós.
A leitura da Paixão segundo São João nos introduz no mistério profundo da entrega de Cristo. Ele morre no mesmo momento em que, no templo, eram imolados os cordeiros pascais, revelando-se como o verdadeiro Cordeiro, cujo sacrifício é único e definitivo. João não pretende narrar uma crônica detalhada, mas iluminar o sentido espiritual dos acontecimentos, fortalecendo a fé dos discípulos. Jesus é a Luz, mas os homens preferiram as trevas, rejeitando-o e condenando-o.
A narrativa joanina destaca a oposição entre luz e trevas: Jesus aparece firme e consciente, enquanto seus opositores agem na escuridão da noite. O velho Anás simboliza aqueles que rejeitam a Luz e se apegam às trevas. Diante de Pilatos, o julgamento se desenrola entre dentro e fora, noite e dia, culminando ao meio-dia, quando Pilatos proclama solenemente: “Eis o vosso Rei”. Na crucificação, a inscrição sobre a cruz confirma a realeza de Cristo em várias línguas, para todo o mundo. A túnica indivisa, repartida em quatro partes, simboliza a universalidade da salvação. Maria é confiada ao discípulo amado, sinal de que todos os que seguem Jesus até a Cruz são acolhidos como filhos. A morte de Jesus é serena: o véu do templo se rasga, revelando o rosto de Deus. Suas palavras “Tenho sede” evocam a água viva prometida, e do seu lado aberto brotam rios de água viva, sinal do Espírito e da vida nova.
Na sepultura, José de Arimateia oferece perfumes abundantes, como em uma festa nupcial. O sepulcro é preparado como leito para o Esposo, antecipando a união definitiva com sua Esposa, a Igreja. João não busca comover pela descrição dos sofrimentos, mas revelar a grandeza do amor de Cristo. A Paixão é apresentada como celebração nupcial: no Calvário inicia-se a festa das núpcias entre Deus e a humanidade, que encontrará sua plenitude no céu.
A Cruz, portanto, não é apenas sinal de dor, mas sobretudo de amor e vitória. É o altar da entrega total, onde se inaugura a história definitiva da aliança entre o Criador e suas criaturas. No silêncio da Sexta-feira Santa, a Igreja contempla o Esposo que se entrega por amor e se prepara para celebrar, na Ressurreição, a plenitude da festa das núpcias eternas.
Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG