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Homilia – Quinta-Feira Santa, 2 de abril de 2026

1ª Leitura: Êxodo 12, 1-8. 11-14

Salmo: 115

2ª Leitura: Coríntios 11, 23-26

Evangelho: João 13, 1-15

O Tríduo Pascal é considerado um único grande dia litúrgico, que começa na Quinta-feira Santa à noite e termina na Vigília Pascal, no Domingo da Ressurreição. Embora se fale em “três dias santos”, a Igreja enfatiza que se trata de um só mistério celebrado em unidade: Paixão, Sepultura e Ressurreição do Senhor. Este detalhe é uma particularidade importante da tradição litúrgica, pois mostra que não são celebrações isoladas, mas um único caminho espiritual.

A Missa da Ceia do Senhor, celebrada nesta noite, é marcada por quatro elementos fundamentais: a instituição da Eucaristia, a instituição do Sacerdócio, o mandamento novo do amor e o rito do lava-pés. Tudo isso nos introduz sacramentalmente no mistério da entrega de Cristo, que se ofereceu em corpo e sangue por nossa salvação.

A liturgia de hoje nos convida a viver a memória. Não se trata de uma recordação distante, mas de uma atualização viva do Mistério. Celebramos a oferta do amor do Pai, que, em seu Filho, se fez alimento e bebida para nós, tornando-se presença permanente em nossa caminhada.

A Páscoa judaica, celebrada nas casas e presidida pelo chefe da família, recordava a libertação da escravidão no Egito e a aliança no Sinai. Essa celebração prefigurava a Páscoa de Cristo, que nos conduz da escravidão do pecado à liberdade da vida nova. O cordeiro imolado, sem defeito, anunciado por Moisés, encontra sua plenitude em Jesus, o verdadeiro Cordeiro que derramou seu sangue para nos livrar da morte. No Batismo, somos marcados por esse sangue e nos tornamos pertença do Pai, escolhidos e amados.

Assim, o Tríduo Pascal nos chama à vigilância e à prontidão: pés calçados, cinto atado, cajado na mão, como peregrinos que revivem os passos da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. A Quaresma foi o tempo de preparação; agora, unidos às dores de Cristo, somos convidados a colocar sobre a Cruz nossas angústias e tribulações, confiando que Ele transforma tudo em vida nova.

Diante de tantos dons, surge a pergunta: como retribuir ao Senhor? Não há medida capaz de igualar o que recebemos. A única resposta possível é acolher com gratidão o dom da vida e da salvação. “O Senhor nos deu vida e salvação!” – esta deve ser a proclamação constante de nossos lábios, em fidelidade Àquele que nos criou e nos resgatou por amor.

São Paulo, na segunda leitura, recorda o momento da instituição da Eucaristia e do Sacerdócio. Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós”. Na Eucaristia, Ele nos oferece o Pão da vida, descido do Céu, alimento para a alma e o corpo.

Ao ordenar: “Fazei isto em minha memória”, institui também o ministério sacerdotal, preparando os apóstolos para perpetuar sua missão. Ressuscitado, confirma: “Eis que estarei convosco até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Assim, os sacerdotes de hoje são herdeiros desse poder de tornar presente o Corpo e o Sangue de Cristo, sustento indispensável para nossa vida espiritual.

No Evangelho, contemplamos o gesto do lava-pés. Jesus, Mestre e Senhor, se inclina para servir. Judas, dominado pelo mal, não compreende; Pedro resiste, incapaz de aceitar um Messias que se humilha. Mas Jesus afirma: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Este gesto revela que o verdadeiro Messias é aquele que serve e se entrega. O lava-pés não é apenas sinal de humildade, mas expressão de amor que se doa até o fim. “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14).

Tudo aquilo que celebramos nesta noite não pode ficar restrito ao altar ou à memória de um acontecimento passado. A Ceia do Senhor nos introduz em um mistério que pede resposta prática, compromisso e testemunho. Os quatro gestos fundamentais, Eucaristia, Sacerdócio, mandamento do amor e lava-pés, são como portas que se abrem para a vivência cristã no cotidiano. Cada um deles nos interpela e nos desafia a traduzir a fé em atitudes concretas, tornando nossa vida um reflexo da entrega de Cristo.

Na Eucaristia aprendemos que num mundo marcado pelo individualismo, participar da Missa e comungar é assumir o compromisso de partilhar e de ser presença de Cristo no ambiente de trabalho, na família e na sociedade. Hoje, isso significa transformar nossas mesas em lugares de partilha e acolhida, combatendo a indiferença e a exclusão.

No Sacerdócio descobrimos que o ministério ordenado continua sendo essencial, mas também somos chamados ao “sacerdócio comum dos fiéis”. Isso nos desafia a viver nossa fé de modo ativo, testemunhando Cristo nas pequenas escolhas diárias: honestidade, solidariedade, cuidado com os mais frágeis. Em tempos de descrédito das instituições, o testemunho autêntico é o que dá credibilidade à Igreja.

No Mandamento do amor, somos provocados a superar divisões e construir laços de fraternidade. Amar não é sentimento superficial, mas decisão concreta de servir, perdoar e construir pontes. Hoje, o mandamento novo nos pede atenção especial aos migrantes, aos pobres, aos que sofrem com violência e abandono.

No Lava-pés, Jesus nos ensina que autoridade é serviço. Em tempos em que o poder muitas vezes se traduz em dominação, o lava-pés nos convida a liderar servindo. Isso pode se traduzir em atitudes simples: escutar quem não tem voz, ajudar sem esperar retorno, colocar-se no lugar do outro. É um chamado a uma Igreja que se inclina diante das feridas da humanidade.

Assim, o Tríduo Pascal não é apenas memória litúrgica, mas caminho de transformação. Ele nos desafia a ser Igreja que celebra, mas também que se compromete com a vida, que se torna sinal de esperança em meio às dores do mundo. Reflitamos!

Pe. Afonso Gomes de Melo.
Quase-Paróquia Nossa Senhora de Fátima,
Distrito de Contrato – Itamarandiba/MG

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