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Cultura de paz



Um estudo realizado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública nestes últimos dias, tristemente nominado de “Atlas da violência”, constata que 10% de todos os homicídios do mundo ocorrem no Brasil. Isso nos coloca a frente dos países em guerra. E, em apenas três semanas, houve mais pessoas assassinadas no Brasil que a totalidade das mortes por terrorismo durante um ano inteiro no mundo.


A reflexão comum, e tradicionalmente usada, aquela a despeito da desigualdade social, parece não se sustentar mais; dado que é empiricamente testemunhado que não estamos entre os países mais pobres. Se assim fosse, o nível de violência estaria beirando ao status social médio da nação, e ocuparia um lugar aproximado à posição econômica do país no cenário mundial.


Dado que a violência se destacou visivelmente da condição e posição econômica do Brasil, a alternativa sociológica perde a sua validade.


Quando uma alternativa decai outra precisa ser validada em seu lugar, considerando que a maioria dos efeitos pode ser rastreada até a sua causa.


Antes de se aprofundar na busca por essas outras causas cabe, por hora, tão somente especular sobre a complexidade dessas raízes que podem estar centralizadas em condições antropológicas e culturais que se anelaram entre si, para constituir a representação social de quem poderia ser mais, e, porque envolto nas duas condições anteriores foi sempre menos. Assim, a condição social não seria a causa da violência; ela também seria um efeito.


É uma aproximação bem mais complicada e que demanda agora toda sensibilidade possível para não ultrapassar o limite da razoabilidade, contudo, a urgência na mudança de foco parece se impor por si mesma.


A violência que culmina no homicídio se espraia pela corrupção política, pela falta de amabilidade e amor ao próximo, que faz o mais forte desprezar os mais fracos e indefesos; essas veias abertas se fazem ver na violência do trânsito, na morte de policiais e nas mortes causadas por eles.  O direito absoluto reivindicado por cada um se torna intransigência de quem não sabe transigir e tudo isso junto produz a sua obra.


Uma cultura de paz, portanto, não advém agora de uma condição em particular. Ela decai, em primeiro lugar, de um freio em todas essas atitudes nefastas, e em seguida, de uma profunda mudança de sentido na direção contrária a que velejou até agora. Recordando, por fim, que antes de convergir é preciso diminuir a velocidade.

 

 

Pe. Dr. Lindomar Rocha Mota

Diretor da FAC