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“Cada um de nós precisa de um momento de verdade, mesmo que possa doer”. Uma reflexão.


(Quem se leva a sério, tem mais tempo para ver sua ‘verdade’)

(Côn. Manuel)


 

Tenho pensado nas palavras de Jesus quando diz: “Eu sou o caminho a verdade e a vida” (Jo 14, 6) e ainda “... e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8, 32). Diante das palavras do Mestre vejo que a verdade tem dois braços. Um é o caminho o outro a vida e, assim, nos libertar do que nos pode prejudicial. Por isso, em uma das minhas aulas na Pontifícia Universidade Católica, Campus Serro, fizemos uma exposição sobre ‘cada um de nós precisa de um momento de verdade, mesmo que possa doer’. Desse modo vou ao encontro de Renato Kehl quando afirma: “Dentre os mais dignos predicados de um homem está o de saber dizer a verdade”. William Shakespeare acelera nossa reflexão: “A suspeita sempre persegue a consciência culpada; o ladrão vê em cada sombra um policial”. Ajuda-me nesta reflexão o aluno Fernando Campos Pereira Figueiredo, do 3.º Período do Curso de Direito, que com sua autorização publico seu trabalho, feito em sala de aula.

 

A presente citação de reflexão “Cada um de nós precisa de um momento de verdade, mesmo que possa doer”, embora visivelmente simples, possui substancialmente, em sua essência, um altíssimo teor de fortaleza e franqueza, que necessita de ser explicitado e apresentado. A palavra “verdade”, presente na frase, não como uma mera palavra avulsamente escolhida, mas sim como o núcleo de energia que rege todo o significado da oração, possui uma imagem extremamente assustadora para grande parte das pessoas na atualidade, ou até mesmo, pode sempre ter causado sensações de medo e desconforto, além de insegurança, que todos procuram tão desesperadamente, não demonstrar. Isto, porque a verdade persegue cada indivíduo, incessavelmente, através de sua consciência, procurando fazer com que tais pessoas optem por ela, independentemente das conseqüências e do sofrimento que poderá sentir ao aceitar e expor, não apenas a si mesmo, como também ao próximo, a realidade se seus atos e das suas escolhas.

 

A verdade é, na verdade, acompanhada de um elemento fundamental e completamente significativo para a vivência e agir humano, já mencionado anteriormente, no qual é sinalizador, e também, um mecanismo de auto conselho do ser humano, para a consciência.  A verdade, em comunhão com as forças da consciência, estimula no indivíduo a necessidade de demonstrar valores como humildade e caráter, porém, infelizmente, nem todos conseguem aceitar e admitir seus erros e andar por este caminho com as próprias pernas. Alguns precisam de um empurrão, por assim dizer, para a realidade, e aprender a escutar, enxergar e aceitar a sua própria verdade por meio de ações de outros. O certo é que, independentemente da maneira em que os resultados e conseqüências dos seus atos aparecerão, seja por meio de si próprio ou da ajuda de outro, e, independentemente do tempo que demore até aparecerem e se revelarem, eles inevitavelmente irão transparecer, e o sofrimento gerado disto será também inevitável, porém sumamente necessário e muito importante para a formação da possível nova pessoa que a partir deste momento, começará a se formar.

 

Fazendo-se uma analogia, o sofrimento, na vida, é tão necessário e de igual valor ao alimento. Na verdade, assim como existem os alimentos para saciar a fome e as necessidades nutritivas do corpo físico, para o bom desenvolvimento e saúde do mesmo, o sofrimento é o alimento da alma e do caráter. Este possui gosto muito azedo, ou amargo, contudo, os alimentos mais saudáveis e nutritivos, que fazem crescer e se desenvolver bem, possuem gosto desagradável no geral. E, neste sentido, o sofrimento, cozinhado pela verdade, mesmo que de gosto ruim, ajudará a fazer crescer um caráter e uma alma humildes, saudáveis e muito nutridos, onde o indivíduo finalmente aprenderá com seus erros se tornará experiente com eles, passando assim a se amar e se aprimorar mais como pessoa, procurando assim ser cada vez melhor.

 

“Talvez, a maior verdade é não saber o que é verdade”, como apontado pelo Professor Manuel em sala de aula, porém, também explicado pelo mesmo, “A maior mentira, pode ser, dizer não saber o que é verdade”, pois, cada um de nós possuiu em nosso profundo interior, plena consciência do que é a nossa própria verdade, nossas próprias escolhas, atitudes, atos e erros. E, muitas vezes, utilizamos do argumento “ninguém é dono da verdade”, para tentar enganar e nos esconder de nós próprios, o que é extremamente perigoso e muito pior. Palavras têm e necessitam de serem ditas em seus oportunos momentos, e por mais dor que possam causar a verdade e a sinceridade, esta mesma dor, e também sofrimento, serão responsáveis por uma possível e grande mudança e melhora de caráter, possibilitando ao indivíduo que nutra a sua essência e aprenda com seu passado, e que também utilize seu sofrimento como alicerce se sua mudança, para que não volte a praticar ações inapropriadas e que retorne a se esconder atrás de mentiras e do desconhecimento falso de sua própria verdade. “Quem não tem tempo para se amar e conhecer, jamais terá tempo para ver sua ‘verdade’, mesmo que possa doer” (Côn. Manuel). Pense nisso.

 

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Professor do Seminário de Diamantina e da PUC – MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – MG

Membro da Academia Marial de Aparecida – SP.