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O eu levado a sério na ética e no sigilo: Uma reflexão

 

"O sigilo só existe em quem o assegura num caráter ético "

(Côn. Manuel)

 

Adentrar no campo da ética, visando-a como marco no crescimento humano é tornar possível uma tomada de consciência de que o Eu-ético só é com Outro através de um processo que abrange desde o companheirismo, até a autêntica comunhão, passando pelas etapas de amizade, afeto, conflito, negociações, vivenciando esclarecimentos até a certeza do caminhar sempre. Este é um dos processos que marca o ritmo do crescimento do ser humano e permite, aos poucos, reconhecer o Outro como diferente, como uma pessoa de quem devo me aproximar com respeito, sem invadir nem impor. Como diz uma grande amiga minha, "o importante se faz através de você", logo, o que lubrifica "o você" é o tornar-se sempre e cada vez mais humano, mais pessoa; o que só é possível, se este humano assume um estilo de vida que permita um bem-estar total e, sempre se lembrando, como nos diz Fernando Savater no seu livro: Ética para meu filho, que "uma vida humana boa é uma boa vida entre seres humanos; caso contrário, pode até ser vida, mas não será nem boa, nem humana". Não existe vida humana fora do humano.

Cada ação só é verdadeira se tem o tamanho de quem a diz. Coordenar e promover a ética em nós corresponde aprender a analisar os elementos que compõem a existência-humana-no-mundo. O ser humano não pode viver sem os outros da sua espécie e precisa deles para evoluir e tornar-se cada vez mais ético. É nos relacionamentos pessoais, profissionais, comunitários e outros que nós temos a grande oportunidade de conhecer alguém e receber dele informações que, para o bem ou mal nos alimentam, nutrem, afetam nosso comportamento, nossas opiniões e decisões. Toda pessoa tem o sagrado direito de se expressar, comunicar, expor suas idéias, executar seus argumentos, deliberar seus projetos/planos, estar contra ou a favor. Todavia, esses mesmos direitos, a outra pessoa os tem, e por isso, a cordialidade de ouvir é algo tão sagrado quanto o direito que nos é outorgado.

Nunca é demais ressaltar que, entre todos os seres vivos que nascem, crescem, produzem e morrem, o ser humano possui qualidades que merecem nossa atenção e destaque. Entre elas, a linguagem prima pelo seu límpido agir quando valoriza o expressar das emoções, sentimentos, desejos, ensinamentos, exigências, interesses, conhecimentos, desgostos, entre outros. Todavia, é sempre bom refletir que a linguagem é dirigida a "um outro que reconhece em mim o seu outro", como muito bem expressou Betuel Cano no seu livro Ética: arte de viver. Navegando nos mares da ética vemos que o grande oceano da sociedade do local onde trabalhamos e vivemos, precisa ser considerado, valorizado e respeitado com toda a veemência, energizando a presença do Eu que só o Outro aprecia e testemunha. Ajuda-nos a ter esse cuidado, a ética, a prudência e a responsabilidade, tendo como prêmio, a tranqüilidade, a paz e a concórdia; exaltando a celebração do compromisso, tanto a nível social, quanto profissional e pessoal. Com entonação especial, convido você, leitor, a refletir sobre este artigo e que, a partir de sua leitura, você se disponibilize sempre a examinar os dois lados da moeda, o de Deus (ética/pessoa) o de César (meio onde estamos), e tire suas próprias conclusões. Um conselho: nunca conclua nada ouvindo só um lado, o Outro também tem algo a dizer.

Hoje, vivenciar um valor ético é uma arte que move a personalidade num compromisso tal que estimula a prudência nas ações, vale dizer, o sigilo. É sabido que não existem pessoas iguais e, é na riqueza da diferença que vemos a beleza da arte de viver, a criatividade dos outros e a alegria da convivência. O sigilo assegura o caráter ético, dá segurança ao valor da comunicação e objetiva o que é essencial num diálogo. Ele nos faz pessoas responsáveis e respeitadas no campo profissional e no ambiente no qual estamos envolvidos. É nesta trilha de idéias que vemos a grande glória do respeito. Ainda mais, o sigilo nos oferece as credenciais da fidelidade à instituição que trabalhamos ou convivemos, reforça nosso compromisso pessoal e social. No olímpico campo de ação na qual nos envolvemos, o sigilo só progride na ética, e esta só progride no sigilo, se nós nos auto-programamos e determinamos nossas palavras, comentários, nossos desejos de "eu sei que você não conta para ninguém", em qualquer ambiente que estejamos. Com isso, não queremos fazer do sigilo um mistério ou algo infalível na cátedra da consciência. O sigilo tem sua verdadeira comunicação na hora certa. Só esperamos que ninguém tenha o dissabor de errar a hora. Gostaria de terminar este meu artigo citando as palavras de Napoleon Hill: "estar juntos é um começo, continuar juntos é um progresso, trabalhar em conjunto é sucesso". Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Professor do Seminário Arquidiocesano de Diamantina e da PUC-MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina

Membro da Academia Marial – Aparecida - SP