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Ouvir, hoje, é uma arte ou necessidade?  Uma reflexão


“Não sou um ruído, sou uma pessoa”

(Côn. Manuel)


Num mundo onde os ruídos parecem ultrapassar o sossego e o amontoado de pessoas passam por despercebidas, é obvio que podemos sentir a sensação de que estamos sós. Hoje as ruas são largas, mas as pessoas nem usem de dar um bom dia. Temos edifícios, casas luxuosas. Contudo, a comunicação está de cada vez mais deficitária. Quantos são os que estão sós no meio de tanto aparato. É por isso que vislumbramos o escutar. Como é bom o eu sentir que não está só. Um desabafo pode fazer tão bem a uma individualidade metafísica da pessoa quanto o valor, ou mais, de uma caixa de remédios. Quantas pessoas se trancam, no mais escuro do seu ser, por não terem quem as ouve. Atesta-nos André Gide: “Nada lisonjeia mais as pessoas do que o interesse que se presta ou se parece prestar àquilo que dizem”. Quem ouve exerce um dos maiores atos de caridade e de amor. Escutar lubrifica a palavra de quem diz e engrandece o coração de quem escuta.

 

Escutar hoje é uma arte. Dentro dos tantos afazeres do cotidiano, tudo parece indicar que só o profissional, vale dizer: psicólogo, psiquiatra e outros se disponibilizam, profissionalmente, para escutar alguém, quando este sente algo que merece atenções maiores. Exercer ou aplicar o sentido da audição, para muitos, é um grande favor ou uma prática reservada, a quem apenas nos procura. No dizer de Jules Renard: “hoje, não se sabe falar porque já não se sabe ouvir”. Quem ouve com o coração, com alma e com a mente está colaborando com o maior aprendizado de todos os tempos. Quantas vidas não foram salvas, corações curados e mentes saradas por causa de um gesto tão simples, ouvir o outro.

 

Alphonse Karr diz-nos; “Os auditórios não são constituídos por pessoas que ouvem, mas por pessoas que aguardam a sua vez de falar”. Na hodiernidade vemos uma enorme fila de pessoas que querem apenas falar e ganhar como prêmio a possibilidade de serem escutadas. Contudo, os ruídos do mundo parecem tirar a sintonia da comunicabilidade da pessoa. Com o passar do tempo o entulho vai ganhando força no interno da pessoa. À guisa de exemplo e usando uma narração alegórica na qual o conjunto de elementos quer invocar comparações, ou outras realidades, vamo-nos deter a palavras levados a jeito de parábola. São pequenas porções de pó, como por exemplo: Vem depois, agora estou ocupado, liga de novo; são fragmentos de argamassa ressequida, ou seja, já tenham tantos compromissos, viagem marcada, já me comprometi com outra pessoa... e por aí vai as desculpas; são os pedregulhos, vale dizer, minha agenda está cheia até ao final do ano. E, na última folha, o que restou para o outro. Onde ele fica?

 

Pior ainda é quando a pessoa perde o gosto de ser ouvida, por não ter oportunidade de ganhar esta grande dádiva. O emocional vira um monte de areia. Quem passa perto, irrita os olhos. A pessoa se revolta e vai aos poucos erigindo palavras como: ninguém me ouve, não presto nem para ser ouvida, parece que eu não existo. A ansiedade vai desestabilizando a personalidade e o caráter da pessoa. A depressão elabora seus lotes. Um para o sistema nervoso, outro para as doenças psicológicas, outro ainda para a excitação, agitação e por aí vai. Toda uma vegetação inextricável sem trazer benefício nenhum se ergue a quem precisa apenas de um simples momento, o de ser ouvida. “Saber ouvir quase que é responder”. Assim nos honra Marivaux. Quem escuta está nivelando a pessoa, acreditando no terreno do seu potencial e no que ela pode produzir. Ouvir é como tirar das escavações do mais íntimo da pessoa a confiança e a dignidade das riquezas que ela pode colocar a serviço de outrem. “A natureza deu-nos dois ouvidos e apenas uma língua, a fim de que possamos ouvir mais e falar menos” é a grande afirmação de Zenão de Eléia. Ninguém é um fragmento. Todos nós somos a riqueza de uma construção que chamamos sociedade, família, grupo e outros. Porém, acima de tudo, somos gente. Pense nisso.


Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Professor do Seminário de Diamantina e da PUC – MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – MG

Membro da Academia Marial – Aparecida - SP