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A caridade e o perdão na espiritualidade alimentar da Quaresma: Uma reflexão

 

 

“Se evitares as gorduras de egoísmo, facilmente entendirás a Quaresma”
(Côn. Manuel)

 

 

A Cada ano nos é oferecido uma grande oportunidade de ouvir falar da Quaresma. Normalmente, palavras como: Tempo forte, penitência, arrependimento, jejum, conversão e tantos outros são ouvidos por nós quer nas liturgias eucarísticas, textos bíblicos, pregações, palestras e nos meios de comunicação de caráter religioso. Tudo isso são fontes maravilhosas que nos levam a um encontro com Deus e nós mesmos. Contudo, Santo Antônio nos seus belos dizeres diz: “a caridade é a alma da fé”. O grande taumaturgo assevera: “Quem não possui a caridade, mesmo que faça tudo muito bem feito, sempre trabalha em vão”. Quem pratica a caridade sempre está orando sem cessar. Por isso, o tempo da Quaresma é especial em sua metodologia espiritual. Neste tempo litúrgico encontramos à nossa disposição a misericórdia de Deus que no dizer do Papa Francisco “jamais se cansa de perdoar; nós é que nos cansamos de pedir perdão a Deus”. Na Quaresma a fé, no dizer de Santo Agostinho, “é uma folha em branco onde pedimos que Deus escreva em nós o que quer”. Neste tempo de espiritualidade devemos observar se a esmola que ofertamos, com tanto amor, visitou ou consultou o afeto do nosso coração. São Leão Magno completa-nos com um forte pensamento: “A quaresma é tempo de limpar e enfeitar a casa por dentro. Convém que vivamos sempre de modo sábio e santo, dirigindo nossa vontade e nossas ações para aquilo que sabemos agradar a Deus”.

 

Numa boa alimentação espiritual da Quaresma, me permita,  usar algumas analogias embasadas num e-mail que recebi em minha caixa eletrônica e, que, depois de lido me levou a belas reflexões para a vida e, sobretudo, a pensar um pouco mais. Se queres levar a sério a Quaresma tenha em mãos um instrumento cortante, afiado, com as lâminas da caridade e do amor para cortar os vícios que talvez possam estar te assolando ou debilitando nos caminhos da fé. Tenha em seu coração quaresmal um bom coador para purificar a intenções que se não forem bem coadas podem ferir, magoar ou até mesmo “matar” psicologicamente alguém que você quer bem desde um amigo (a) até pessoas de tua comunidade ou família. Tenha em mãos um abre latas. Quem sabe te pode ser útil para abrires o coração para o perdão e trilhar novos caminhos para um amanhã mais promissor. Não tire do seu cardápio o caldo da atenção aos tristes e abatidos. Na salada tenha o cuidado dos detalhes, sobretudo, reforçando o carinho no visitar um doente, caprichar no teu bom dia, dar uma olhada naquele reparo que ainda falta terminar. No azeite e tempero da salada usa os sete dons do Espírito Santo e a quatorze obras de caridade. Sua salada vai ter um gosto que você jamais vai esquecer. São Leão Magno, no seu primeiro sermão sobre a Quaresma disse: “Mortifiquemos um pouco o homem exterior para que o interior seja restaurado; perdendo um pouco do excesso corpóreo, o espírito robustece-se pelas delícias espirituais”.


São Cláudio de La Colombiere num de seus fortes pensamentos nos alerta: “Os planos de Deus nunca se realizam senão à custa de grandes sacrifícios”. São Jerônimo acrescenta: “Muitos começam bem, mas poucos são os que perseveram”. Nosso alimento quaresmal, seguindo a linha destes dois santos, pede que sejamos convidados a fazer um purê de cenoura para ver com bons olhos os outros. Quem desvia os olhos dos inimigos e não os perdoa de coração sincero vai na contramão das palavras de Jesus: “Amai vossos inimigos; fazei o bem aos que vos perseguem” (Mt 5, 44). Não tenha medo de falar de perdão. Friedrich Schiller afirma: “A mais divina das vitórias é o perdão”. George Herbert é mais explicito: “Aquele que não pode perdoar destrói a ponte sobre a qual ele mesmo deve passar”. Ataíde Lemos nos consola ao dizer: “Perdoar é mais que um gesto de humildade; uma atitude de misericórdia; um ato de amor... perdoar é uma necessidade para a nossa felicidade”. Nesta Quaresma tenha o pão abundante do perdão. Compartilhe essa necessidade com os abatidos e com os que têm fome de perdão. Como prato especial mantenha o perdão sempre unido à caridade. Assim, você vai se abster de consumir altas gorduras de egoísmo. Na minha vida pessoal, senti muitas vezes, que o tempo não cura uma ferida, mas sim a misericórdia e o perdão. Santo Ambrósio nos diz: “Aquele que luta tem o que esperar. Onde há luta, há coroa”. São João de Cruz conclui: “Não fujas dos sofrimentos, porque neles está a tua saúde”. Quaresma é isso. Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo
Professor do Seminário de Diamantina e da PUC – MG
Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – MG
Membro da Academia Marial – Aparecida – SP