Artigos Públicados

Modificar o tamanho de letra:

“Quem não tem fé, só olha para baixo”: Uma reflexão

“Quem leva a misericórdia de Deus a sério, nunca olha para baixo”
(Côn. Manuel)

 

A vida nos seus altos e baixos é promissora em nos surpreender. Com Jesus não foi diferente. O capítulo 14 de Mateus no versículo 31 mostra-nos a cena na qual Pedro duvidou que Jesus andasse sobre as águas. Era um momento difícil, inclusive no versículo 22, do mesmo capítulo 14, vemos a fé nos momentos difíceis. Aliais, Pedro desfrutou de grandes ocasiões na fé, olhando para baixo, não, obstante, a especial comunhão que tinha com o Mestre. Vemos isso em três grandes oportunidades de sua vida. O celebre momento da Transfiguração (Mt 17, 1-8; Mc 9, 2-8; Lc 9, 28-36), a Ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 21-26; Lc 8, 40-52) e a Vigília no Getsêmani (Mt 26, 42). Apesar de todos esses privilégios Pedro experimentou o amargo de olhar para baixo na fé. Até o negou por três vezes (Mc 14, 66-72,; Lc 22, 54-62; Jo 18, 15-18). George Sand nos alerta: “Cada um tem a idade do seu coração, sua experiência e sua fé”. Assim como Pedro quantas vezes também já olhamos para baixo nas íngremes situações que nos visitam. O pedido que não foi ouvido. O propósito que não teve seu término feliz. A ferida que teima em não cicatrizar. O passado que insiste a residir no presente. A vulnerabilidade de amizades que não me levem a lugar nenhum. O namoro sem didática alguma para construir um futuro sólido. A traição que me desafia na verdade de sua grande mentira. O crer que faço as coisas pensando que ninguém vai saber e me ver, entre outros.  A vida não consiste no longo caminho, mas na segurança do primeiro passo. Isso nos deve fazer pensar.


Receber um convite para nunca olhar para baixo na fé não é para qualquer um. Contudo, você como eu podemos ser convidados a ter esse desafio na vida como pessoas e, sobretudo, como cristãos. Martin Luther King nos ajuda. Ele diz: “Suba o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo”. Precisamos investir mais em nós. Acreditar que podemos ser melhores, sabendo que jamais estamos sós. Não obstante, a negação de Pedro (Lc 22, 54-62) a dúvida de Tomé (Jo 20, 24-29), Jesus mostrou o mais precioso do seu Coração, a compaixão na sua misericórdia. Quantas vezes pensamos que as coisas não têm mais jeito. Fomos esquecidos. Entramos na lista dos ingratos. O escuro nos invade. O amontoado de dúvidas nos quer confundir. O amanhã incerto. Quem são nossos amigos. Se vamos a este ou aquele lugar pedir ajuda ou desabafar. Não te esqueças Jesus passou por isso no Gólgota (Mc 15, 22) e na Crucificação (Jo 27, 35), Ele, se viu só. Ninguém estava por perto. Mais forte foi saber que tinha amigos e todos o abandonaram. Todavia, o Mestre nunca olha para baixo. Carlos Drummond de Andrade nos diz: “A confiança é um ato de fé e esta dispensa raciocínio”. Também nós, por mais que sejam nossas intempéries, os calvários da vida, as incompreensões, o desprezo de muitos, o golpe da ingratidão, entre tantas outras coisas, olhar para baixo, vai dificultar de olhar para a frente. Mahatma Gandhi atesta: “A fé é algo para se entender, é um estado para se transformar”. Quem olha para baixo, não avista o bonito do que o espera lá na frente. Quem olha para baixo só alcança o chão e não a estrada. A vida consiste em caminhar, olhando para a frente.


Quem procura entender o tudo que lhe acontece de bom ou de ruim, apenas fica na busca de explicações e conclusões. A vida é mais. Acredite que tudo passa. Só o amor permanece. Santa Tereza de Jesus no seu jeito espiritual nos consola: “A cruz é dura para quem a arrasta, não, porém, para aquele que a abraça”. São João Paulo II abre nossos caminhos: “Cada um de nós tem tanto o desejo quanto o dever de conhecer a verdade de nosso próprio destino”. Se você quiser eliminar tudo na vida com medo de enfrentar a realidade o melhor é nunca sair de casa. Mahatma Gandhi nos assevera: “Nunca perca a fé na humanidade, pois ela é como um oceano. Só porque existem algumas gotas de água suja nele, não quer dizer que ele esteja sujo por completo”. A nossa vida pode não ser perfeita, mas Deus, mesmo assim, nos ama e nos manda avançar para águas mais profundas (Lc 5, 4). Jesus quando viu Pedro afundar estendeu a mão e o salvou (Mt 14, 31). Hoje a mão de Jesus é a sua Palavra, a Bíblia, a Eucaristia, os Sacramentos, a doutrina da Igreja, a palavra de seus pastores, vale dizer: O Santo Padre, o Papa, os bispos, sacerdotes, diáconos e leigos. Mas com certeza a mão de Deus é mais generosa na sua santa misericórdia. Ela é o abraço do Pai no filho pródigo (Lc 15, 11-32), o querer ficar na casa de Zaqueu (Lc 19, 1-10), de curar os leprosos (Lc 17, 11-19) e de dizer sempre: Hoje estarás comigo no paraíso (Lc 23, 43). Quem leva a misericórdia de Deus a sério nunca olha para baixo. Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo
Professor do Seminário Arquidiocesano de Diamantina e da PUC-MG
Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – MG
Membro da Academia Marial de Aparecida – SP