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Quando a Traição fala a verdade na mentira


“A traição hipnotiza a pessoa e a deixa inútil perante a verdade”

(Côn. Manuel)

 

 

Renato Kehl em um dos seus pensamentos assevera: “Dentre os mais dignos predicados de um ser humano está em saber o que é a verdade e o que é a mentira”. Por isso, na complexidade dos bens tecnológicos convém não misturar a beleza do sentimento. Esta força maior, o sentimento, sempre se atualiza no automático da consciência. Sua bateria é carregada pelo coração e os sentimentos são sua grande proteção. Mahatma Gandhi expressa isso com simplicidade: “Assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, também a mentira, por menor que seja, estraga toda uma vida”. A traição nada mais é do que a verdade de uma grande mentira. É mais difícil provar a mentira do que declarar a verdade. Com uma mentira traidora se pode acabar com uma família, relacionamento, amizade e a boa convivência com pessoas da nossa confiança. A traição é como uma estrada sem sinalização, mesmo com todo o cuidado o perigo pode acontecer. No cofre da traição não tem espaço para a verdade. O traidor perde a identidade, tem medo do seu eu e precisa nascer de novo para o brilho de sua consciência, coração e sentimentos. A verdade é a conformidade com o real, a exatidão orientadora do pensar, a maior dádiva que o ser humano pode possuir em sua realidade. Nela encontramos a maturidade das ações, a eloqüência do caráter e a cátedra da personalidade. A verdade é um valor cujo alcance só é permitido ao homem. Por sua vez, a mentira é o ato do juízo dissimulado, cujo ganho maior é a falsidade. Tudo isso, na traição, materializa a maior declaração dos sentimentos, o aumento do imposto perante a responsabilidade e a maior dívida para com a consciência. Diz Roosevelt: “A repetição não transforma uma mentira numa verdade”.

 

Quem trilha os caminhos da verdade, encontra forças para enfrentar este artifício, ilusório, que é a traição. O ser humano, hoje, vive rodeado de um notável terreno de opções. Nelas podem existir colapsos, impossibilitando, a honra de seus compromissos com a verdade. Hoje, que se leva a sério tem bastantes subsídios para se defender do vírus da traição. É isso mesmo. Traição é um vírus que deteriora todo o ser humano e o habilita para as maiores doenças da consciência, dos sentimentos e do coração. Quem trai não sujeita esta conduta só a si, mas atinge toda a família, quer esteja compromissado ou não. Traição é como uma enchente leva tudo o que está ao seu alcance. Já nos diz De Bonald: “Uma conduta desregrada aguça o engenho e falseia o juízo”. O objetivo da mentira é rodear o mundo da verdade, empresariar seus bens, vestir-se das mais belas sedas para aparentar a soberania da esperança. Contudo, seus objetivos se derretem como cera, pois são vazios do amor, carinho e ternura, que só a verdade tem. O roteiro da mentira é levar a pessoa ao mais profundo peso da consciência. Sua decisão é investir os mais caros sentimentos revestidos de uma bijuteria, passando-se numa primeira vista como sendo ouro. Assevera-nos um autor desconhecido: “A mentira é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela”. Essa impostura é a maior amiga da traição.

 

Jesus para assegurar que Ele é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6), nos alerta dizendo: “O céu e a terra passaram mais minhas palavras jamais” (Mt 24, 35). A mentira não tem caminho. Jamais atinge qualquer amanhecer da verdade e nunca vai ter vida, pois não tem o essencial, o coração. O sucesso da mentira de hoje, pode ser a grande enchente de lágrimas no arrependimento de amanhã. A traição é a mais desastrosa justificativa para se alcançar uma derrota. Já nos atesta Iran I. Jacob: “Jamais permita que a traição penetre em seus pensamentos e em sua conduta de vida. O traidor nunca fica oculto. É como o nevoeiro, que aos poucos é vencido pela luz do sol, a verdade. Judas traiu Jesus Cristo e até hoje  seu nome ecoa nos corações dos justos que o abominam e o repudiam” (Lc 22, 21-23). Os fortes ajudados pelo poder da oração e da fé em Deus, podem vencer a tentação da traição, somando valores que só a verdade pode oferecer. Tenha Jesus como seu primeiro amigo. Ele mesmo disse: “Vinde a mim vós todos que estais cansados e afatigados... e Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). Eis, pois, a misericórdia do Senhor. Já nos diz o Salmo 23: “A vontade de Deus só me leva até aonde a misericórdia pode me proteger. Nunca desanimes. A mentira quer ver você olhar para trás. Por isso, o mentiroso é aquele que soma o exército dos que avançam pelas trevas do erro (Mt 24, 9; 1Pe 2, 11). Alenta-nos Winston Churchill: “A verdade é inconvertível, a malícia pode atacá-la, a ignorância pode zombar dela, mas no fim, a verdade vencerá”. Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Professor do Seminário Arquidiocesano de Diamantina e da PUC-MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – MG

Membro da Academia Marial de Aparecida – SP