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A atualidade do cisco e da trave no Evangelho de Mateus. Uma reflexão

“Não Julgueis e não sereis julgados”

(Lc 6, 37)

O Evangelho de Mateus chama à atenção pelo número de parábolas nos seus 28 capítulos, tanto em sua metodologia como na maneira pedagógica de orientar. Jesus sempre nos oferece uma palavra amiga e misericordiosa. A misericórdia de Deus está acima de todo e qualquer pecado. Todavia, vivendo em uma sociedade marcada por grandes avanços gramaticais; competitivas eloqüências demonstradas em retóricas; enunciados tecnológicos de valor altíssimo; dinâmicas acrobáticas erigindo entusiasmos de multidões e, sobretudo, a exaltação de fundamentos para tudo, acreditar nas simples palavras cisco e trave parece algo imaginável, para não dizer contrário à razão atual. Contudo, abrindo nossa exposição, queremos provar que cisco e trave têm muito em comum e são atuais. Percorrendo o Evangelho de Mateus no capítulo 7, versículos 1 a 5, encontramos essa singeleza de Jesus, articulando estes dois substantivos, elaborando toda uma reflexão bíblica e pastoral, presenteando a todos com um sentimento de “não julgueis para não serdes julgados” (Mt 7, 1).

 

Hoje, a ânsia de observar o que se passa ao redor do ser humano, faz que ele seja um “profissional” de respostas prontas, considerando-se suficientemente sabido, julgando sem qualquer escrúpulo quem quer que seja. Mais que atirar pedras, como se fazia no tempo de Jesus, hoje, se aprontam para arremessar palavras, muitas vezes sem rumo nem endereço, ferindo corações, julgando consciências, agitando sentimentos, desmoronando personalidades e, sobretudo, exaltando difamações com conversas, zelosamente alicerçadas nos esconderijos das rodinhas dos amigos. Assim se aumenta a dose da malignidade onde tudo pode acontecer. Tendo em conta o valor do evangelho, o Homem de Nazaré mostrou que a trave incomoda mais que o cisco. A nós resta descobrir o que Cristo quis dizer com isso. Nunca admitimos que temos uma trave a nos incomodar. Temos vergonha de mostrá-la para os outros. O cisco é mais fácil, não é tão pesado e sua dimensão cabe em qualquer lugar. Qualquer fala, observação, comentário, “profetizada”, espalha os mais solenes vírus/venenos, sem serem notificados. São conversas semelhantes a produtos sem que se saiba a proveniência. Ninguém tem o direito de falar de ninguém. Todos os que se habilitam a serem “mestres” nestes artifícios ou manobras ardilosas, se esquecem que têm em casa família com filhos (as), noras, genros, netos, irmãos e outros, possuindo, quem sabe, traves enormes e, sem hesitação, usam o “púlpito” social para falar da vida alheia. Quem faz isso, ainda não entendeu o valor do Evangelho e mais cedo ou mais tarde ouvirá do Filho do Carpinteiro: “Ide malditos de meu Pai” (Mt 25, 31-46).

 

Quem fala dos outros, muita coisa esconde nos recôncavos de sua integridade. Tem uma trave tão bem feita e bem medida que envergonhado se vê no cisco do outro, pensando assim se ocultar. Quem faz isso é um grande guardião de uma personalidade sem amor, um caráter sem misericórdia e no seu interior existe uma escuridão imensa. Seu coração está numa cadeira de rodas por muito que possa andar. Suas artimanhas envergonham a sociedade. Sua presença pública já causa medo, constrangimento, desconfiança e embriaga qualquer tipo de conversa séria. Ninguém acredita nele. É um paralítico digno de dó e da misericórdia de Deus. Jesus, em sua metodologia pedagógica, se preocupa com a pessoa por inteiro, seja ela de que classe for. Para Ele não importa nem branco, nem preto. Nunca lhe interessou se era rico ou pobre, se mora no centro ou periferia. Sua missão é salvar e, por fazer este bem, ganhou uma cruz para os ombros e uma crucifixão que jamais os tempos esqueceram. Mas Ele ressuscitou. O Evangelho é prova disso. No término desta nossa exposição gostaríamos de orientar um algo à mais. Hoje, palavra pode ser prego nas mãos e nos pés; comentário usufrui dor tão grande comparado ao peso da cruz de Jesus e calúnia dói mais que o grito do Nazareno, vale dizer: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste” (Sl 22, 2). Evite o cisco e, mais do que isso, a trave. Não te esqueças: Quem fala mal dos outros, habilita-se à incompetência de se conhecer a si mesmo. Ouve as palavras de Jesus: “Sede misericordiosos como vosso Pai do Céu é misericordioso” (Lc 6, 36). Pense nisso.

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo

Professor do Seminário de Diamantina e da PUC – MG

Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – MG

Membro da Academia Marial – Aparecida - SP