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Quando o inimigo faz a diferença... e nos cura. Uma reflexão

 

“Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”
(Lc 23, 34).

 

Fico pensando nas palavras de Jesus, escritas no Evangelho de Mateus capítulo 5 versículo 44: “Eu, porém, vos digo: Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam”. Queria estar dentro do Coração de Jesus para entender com mais propriedade sua pedagogia metodológica. Aqui temos mais do que palavras. Acredito, que este versículo atinge o auge da consciência humana. Como um hastear de bandeira em dia solene ou de festa, as palavras de Jesus sobem ao topo do nosso ser e, seu eco, nos acorda para a vida. Quem é quem? Com quem pensamos que estamos falando, fazendo uma amizade, erigindo um compromisso, negócios, confiando e outros. Hoje, ficamos com um pé atrás e parece que nos lisonjeia em dizer que não confiamos em ninguém. Com todo esse aparato, vemos que as palavras de Jesus vão na contramão. Jesus é muito claro. Ele diz “amai” vossos inimigos. Amar nada mais é do que querer bem, ter ternura, dedicação e dar atenção. Imagina fazer isso com o inimigo. É preciso ser muito cristão, saber de verdade o que é amar, usufruir um sentimento bem elaborado, estruturado e impregnado no coração humano para se chegar ao sentimento maior de Jesus. Paul Valéry nos ajuda: “O número dos nossos inimigos varia na proporção do crescimento da nossa importância. Acontece o mesmo com o número dos amigos”. Sêneca, do século IV a.C, um dos mais celebres escritores, advogados e intelectuais do Império Romano, nos consola com sua inteligente: “Vive de tal maneira que não faças nada que não possas dizer aos teus inimigos”.


Quando nos dispomos a discorrer as situações da vida observando seu espaço de tempo que decorre desde o nascimento até a morte, enobrecemos nossos ideais de querer vivê-la com a maior intensidade possível. Cada segundo, minuto, hora, dia, mês e ano são tão preciosos que queremos celebrar com quem nos rodeia aprimorando os laços que nos unem, não obstante as diferenças no ser humano. Quem já não se decepcionou com alguém. Maior é a dor quando esse alguém é quem você sempre aprimorou a confiança. Mesmo que toda nossa estrutura esteja preparada para o que der e vier na vida, sempre o inimigo nos assusta. Somos humanos. Quantas situações você já não vivenciou que alguém na tua frente é muito cordial. Oferece-te um sorriso todo enfeitado de elogios. Um aperto de mão selando a veracidade empolgante. Um abraço confiando toda uma disposição para ajudar, entre tantos gestos. Contudo, por detrás de você é uma arma calibre trinta e oito. Seus disparos não atingem o físico, mas vão além. Atingem o que de mais precioso você tem, vale dizer: Teu caráter, personalidade e maneira de ser. É aqui que o inimigo nos ensina é ser mais robusto. Nosso amor perante tal ou tais pessoas precisa saborear as palavras de Jesus: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Precisamos pensar com muita elegância e maturidade: as pedras que hoje lançamos para lá (o outro), amanhã podem vir para cá (eu). Pedra nos ensina muita coisa. Ela pode até quebrar, mas nunca deixa de ser pedra. Oscar Wilde nos impressiona com suas palavras: “Não deixe de perdoar seus inimigos, nada os aborrece tanto”. Eu afirmo ‘quanto maior, sincero, transparente, verdadeiro for o perdão, mais eu entendo o que é “amar os inimigos” (Mt 5, 44).


Um belo dia recebi uma mensagem de celular de uma pessoa amiga. A mensagem dizia o seguinte: “Se você apagar todos os teus erros do passado, apagarás toda a sabedoria do presente”. Pois é. Tenho medo dos que se acham perfeitos muito protegidos ou balizados, pensando que são intocáveis e que nada os pode atingir. Não se esqueça, inimigo é como bala perdida. Esta pode ser fatal ou nos dar um alerta para uma maior segurança. É aqui que devemos orar por aqueles que nos “maldizem e maltratam” (Mt 5, 44). Jesus é muito enfático quando nos assevera: “Se amais somente os vossos irmãos que fazeis de extraordinário? Também os pagãos fazem isso. Sede, portanto perfeito como vosso Pai do céu é perfeito” (Mt 5, 46 - 48). Não podemos esquecer que aqui a perfeição de Deus é outra. É aquela que passa pelo crivo do amor, perdão, não só para fazer bonito, mas para se ser cristão como Deus quer. Madre Tereza de Calcutá na sua experiência de vida nos diz: “Não ame por beleza, pois um dia ela acaba, não ame por admiração, pois um dia me posso decepcionar. Ame apenas, pois o tempo nunca poderá apagar um amor sem explicação”. Faça isso com os inimigos. Simplesmente ame e deixe Deus resolver o que falta. Deixe teu inimigo perceber que você é apenas “um lápis na mão de Deus. É Ele quem escreve”, assim nos diz Madre Tereza. Acredite. Reze, perdoe seus inimigos, pois um dia eles vão rezar e perdoar você ou outras pessoas. Pense nisso.

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo
Professor do Seminário de Diamantina e da PUC – MG
Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – MG
Membro da Academia Marial – Aparecida - SP