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Quando a decepção faz a diferença... e cura. Uma reflexão


"Quando decepciono alguém, o primeiro a ser ferido sou eu"
(Côn. Manuel)

 

Existem palavras que por mais se submetam ao aprumo da definição sempre trazem um algo difícil de entender, uma vez que mexem com o mais vivo do interior. A decepção é uma delas. Decepção nada mais é do que a ausência de êxito em algo que vai desde a esperança ao desapontamento, da surpresa desagradável até a contrariedade e desgosto. Este malogro desmonta toda a estrutura da personalidade, caráter e, sobretudo, dos sentimentos, mesmo que a pessoa tenha todo um aparato de segurança interna. Acredito que não existe pessoa, mesmo que a experiência da vida já o tenha alinhado e calibrado, que não sinta a força tsunamica desta avalanche em sua vida. A decepção promove um blecaute tão grande que não se sabe em qual parte do corpo escurece mais. Todo o ser vislumbra uma tristeza onde reluz a presença da lágrima, um emaranhado de porquês e as portas abertas para um vazio residencial em todo o nosso ser. Contudo, não podemos esquecer as palavras de Giulia Passagem: “As pessoas que mais gostamos são as que mais decepcionam, pois pensamos que são perfeitas e esquecemos que são humanas”. Quando pensamos que qualquer ser humano tem todas as qualidades para edificarmos toda uma amizade, promessas de fidelidade, negócios, compromissos, sigilo e outros, é aí que reside o possível embrião da decepção, pois estamos mexendo com o humano. Martin Luther King nos consola: “Devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita”.


Fico pensando no coração do pai do filho pródigo, narrado pelo Evangelho de Lucas (Lc 15, 11-32). Que metodologia usou para controlar toda a atitude do filho mais novo. Primeiro quando pediu seus bens, depois quando foi embora. Para somar essa sensação desagradável, certamente localizada com maior intensidade em seu coração, como direcionou esse tempo de saudades e trevas. Porém o bonito da parábola é que ele nunca perde a esperança. É aqui que reside a cura por meio da decepção. Seu coração nunca se fechou, ou se trancou, em raivas, ódios, vinganças, indiferenças ou outros malefícios. A vitória da decepção é quando te vê totalmente derrotado. Toda a amargura deste pai jamais o acabrunhou ou o fez desistir. Melhor ainda, nunca olhou para trás. A força da fé e da confiança ancorava nele o desejo de um dia abraçar o filho. Já nos diz Henry Ward Beecher: “Nossos melhores sucessos vêm depois de nossas maiores decepções”. A decepção também nos escolhe e nos chama para nos por à prova. Se é verdade que a decepção nos escurece por dentro, por outro nos clareia. Ela nos torna mais seguros para o passo seguinte. Ficamos menos vulneráveis para um amanhã mais promissor. Nossa estrutura “óssea” parece que se achega mais ao corpo e nos sentimos mais fortes para olhar o horizonte da vida com mais segurança. Nossas atitudes amadurecem. Somos mais gente mexendo com gente. Um dia alguém profetizou: “Você nunca vai mudar a vida, se antes não mudar a sua vida”. Tudo o que passa pela cruz tem uma melhor ressurreição. Veja o que aconteceu com o Filho Pródigo. Ele voltou. Como a decepção nunca ocupou por inteiro o coração do pai, os frutos foram vistos na volta do filho (Lc 11, 18 – 24). Até teve festa (Lc 11, 24). Charles Bukowski nos alerta: “Nunca espere demais, da sorte ou dos outros, no fim não há quem não decepcione você”.


Como queria ter acordes musicais para cantar a decepção, embelezá-la como um algo importante para o amanhecer da vida. Não se esqueça, depois da meia noite não tem mais como escurecer, a tendência é amanhecer e o dia raiar. Paulo Coelho nos atesta: “Quando alguém encontra seu caminho precisa ter coragem suficiente para dar passos errados. As decepções, as derrotas, o desânimo são ferramentas que Deus utiliza para mostrar a estrada”. Clarice Lispector vai mais longe: “Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado”. Isso tem dois caminhos. Perdoe você pelos seus erros, sabendo que a misericórdia de Deus sempre te acolhe. Perdoe os outros, pois, a misericórdia que você quer para redimir seus erros o outro também quer. Pense nisso.

 

Côn. Dr. Manuel Quitério de Azevedo
Professor do Seminário de Diamantina e da PUC – MG
Membro da Academia de Letras e Artes de Diamantina – MG
Membro da Academia Marial – Aparecida - SP